terça-feira, 15 de abril de 2014

Resumo

Existem Momentos no dia
Em que o sentimento é pura coragem
E tantos outros em que sua imagem
É o ato de maior covardia

Em confusão e nessa agonia
Frio enfatiza o fado da viagem
Outro vento sopra quente mensagem
Que toda perda tem valia

Do inimigo recosta ao seio
Que a cada instante tua face imuta
Tens a insídia e o asseio

Satisfaz apenas o anseio
Que seja essa desilusão absoluta
E o resto da vida é passeio.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Há Mais Coisas

Entre um e outro edifício
Se esconde uma nuvem e um pedaço
Do céu

Entre um recuo e um impulso
Se fez o suor e o cansaço
De ser

Entre A Luz e uma Sé
Caminham as sombras e formas distintas
De pressa

Entre uma perda e o sorriso final
Estão milhares de estranhos sentimentos
De culpa.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Ode À Voz

Sempre calma, vem chegando ao ouvido
Lentamente, há de invadir toda a sala
E com a conhecida serenidade da fala
Se abrirá no espaço, apertando o sentido.

Tranquilamente, o baixo tom imprimido
Alivia o desolado barulho, que cala
É uma voz linda, que jamais se abala
Ainda que em meio a todo o caos vivido.

Voz, que vicia ao âmago do ser
Cuja pacificidade é contágio voraz
Transformas o ouvir num excelso prazer.

Não desconfias do enorme poder
Mas ao sorrir tu transmites essa paz
E tudo o que é bom cerca esse teu viver.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Fotofobia

Enquanto a luz não revelar teu amor
Eu não hei de ansiar por ela

Ando com medo do que é muito claro
Temo às entranhas tudo que for óbvio
Já que o próprio fim é seco e sóbrio
Se a própria vida é de valor tão raro

Sejam as árvores ornamentais
Usem máscaras todos os rostos
Soará mais alta que os altos postos
A intrepidez das palavras reais

Enquanto enxergarmos nada além da dor
Não haverá sequer chama de vela

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Velho

Em uma gelada manhã de inverno daquele ano que mudou nossas vidas não exatamente para melhor, caminhava com muita dificuldade, debaixo de uma chuva fina e hostil, do tipo que ao cair faz um barulho que desafia a sair da cama e preparar o café, um senhor de idade já muito avançada, aos passos lentos que podiam dar suas pernas cansadas. A mão direita carregava, além das marcas da guerra e das saudades infinitas da mulher amada, um grande guarda-chuva preto que lhe protegia a cabeça branquinha da fúria pluvial, mas talvez – com certeza – não lhe protegesse da velocidade insana do tempo que lhe deixava para trás em sua caminhada, nem tampouco da tristeza com a qual a lembrança de suas perdas o castigava cruelmente ao andar sem rumo.
E sem rumo diz-se da caminhada deste senhor, pois em verdade seria mesmo muito difícil aos que tem ainda bons músculos e a predisposição a sorrir compreender os motivos dele, que já não mais dependia da atividade remunerada para sobreviver, para andar assim numa garoa fria e num horário tão peculiar, no qual somente os trabalhadores e estudantes deveriam ocupar as ruas daquela cidade demoníaca de nervosismo e pressões sinceramente desnecessárias. O que não sabem os que questionam motivos, é que mesmo até eles próprios, e principalmente eles são completamente carentes de motivos.
Continuava a caminhar penosamente por aquela calçada infestada de gente com muita pressa de chegar e pouco destino final em mente. Passo ante passo, aproximadamente vinte segundos de intervalo entre um e outro, atravessou a rua distribuindo aos motociclistas raivosos uma aflição que não era sua, mas deles, ao ver da situação.
Com pesar, chegou ao outro lado, e continuava sempre em um destino aparente. Conversou ainda, ou tentou conversar com um aluno de colégio particular que vestia um uniforme no corpo e outro na mente; foi ignorado. Tentou depois uma gordinha que se compadeceu de suas histórias, mas o tal do horário disse que não seria possível, e acabou tendo de ir a outro rumo.
Ia passando quase uma hora desde o início da caminhada, quando chegou por fim perto de uma praça com banquinhos de concreto molhados. Já muito desiludido pela impossibilidade do jogo de dominó que havia algum tempo não conseguia jogar, foi abaixar a cabeça quando a primeira lágrima caiu, mas uma voz um pouco distante, mas verdadeiramente próxima obrigou-o a reerguer o pescoço:
 - Ô, Joca, entre aqui, saia dessa chuva que não tem como o jogo ser aí hoje não, rapaz!

Viu num bar do outro lado da rua um senhor de pele escura e sorriso largo em camaradagem que há anos sempre lhe fora suporte diante de todas as chateações da vida. Os braços abertos e a chuva escondiam metade do que haveria lá dentro, mas logo percebeu tratar-se da mesa cheia de outros comparsas de tempos difíceis. Atravessou sem pensar a primeira via da rua de mão dupla, e sentia-se tão feliz naquele exato momento que nada jamais poderia estragar seu humor novamente. E não, nada jamais mudou seu humor, pois daquela maneira em que encontrava-se, com feição da alegria interminável de ganhar um dia perdido permaneceu eternizado seu sorriso. Ao atravessar a segunda via da rua, sua felicidade ignorou tanto o tempo e as amarguras do mundo, que assim como os jovens, não pôde importar-se com mais nada. Não importou-se portanto com a pressa de um daqueles milionários escondidos atrás de escuderias e cavalos de potência, e de felicidade então, foi esmagado por fim, pela arrogância dos homens.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ideal Vencido

Sabe, Renato,
Antigamente, quando eu tinha a tua idade, eu até achava que as coisas ficariam mais bonitas quando olhadas mais de perto, quando eu as olhava de longe. Era sempre assim, eu começava de uma boa distância, observando bem, interpretando do meu jeito de criança, criando tantas expectativas pro futuro e idealizando aquelas imagens, aqueles pedaços da vida, que me davam uma vontade louca de ir chegando mais perto, porque a expectativa é mesmo essa droga que faz com que a gente volte a ser criança de tanta curiosidade. Ah, Renato, como eu era ansiosa, assim que nem você, mesmo, né? Quando tu era bebê, as moças da cozinha sempre vinham até mim ao final do dia dizendo algo como: "ah, mas esse moleque é impossível, não tem jeito, de tão curioso qualquer dia ainda arruma pra cabeça", e eu ria, meio orgulhosa. 
Mas você sabe, o meu orgulho acabou-se. A minha ansiedade não tem mais motivos pra existir, meu filho, pelo simples fato de que naquela época eu tinha a persistência das crianças, mas a gente vai crescendo, vai arrumando mesmo um monte de coisa pra cabeça, e aos poucos, percebe que essa persistência infantil é só algo que assim, personificando a própria infância, até cresce dentro da gente, mas cresce livre, de um jeito que pode mudar e virar uma coisa completamente diferente do que era no começo, pode virar do avesso, e virou. Hoje em dia, essa persistência, que até a pouco tempo ainda me fazia continuar me aproximando do mundo pra ver se ficava mais bonito de perto, virou uma terrível consciência de que só vai haver desilusão. Os ideais, Renatinho, ah, eles estão tão cansados... Mas também, pudera... Foram tão surrados, não é? Teve a ditadura, teve o câncer do teu pai, teve tanta coisa que eu aliás já tô tentando esquecer, que eu fico até com dó dos pobres coitados dos ideais.
Ah, onde eles estão? Devem estar todos amassados naquela cristaleira onde a gente guardava os bibelôs de árvore de natal, aonde todo fim de ano eu ia, abria a portinha, pegava os ideais de novo e colocava na cabeça para serem flagelados novamente no ano seguinte: regime, vida nova, sexo, economia, intensidade, ah, uma mistura imensa, acho até que uma coisa virava exatamente o oposto da outra, ficava tudo uma grande bagunça e lá pra maio os ideais voltavam todos escondidinhos pro cantinho deles na cristaleira. Maio é um mês ingrato, um mêzinho miserável, mesmo. Porque pior que qualquer extremo é o meio, e pior que o meio é o meio do meio. Maio é tão meio que parece meio até no nome, olha que desgraça. Em maio acontece sempre alguma besteira, incrível. E foi em maio que ele se foi, o teu pai, o único homem que eu amei na vida. Ele sim foi alguém de ideais inabaláveis, e é bem provável que essa era a coisa que eu mais amava nele, aquela obstinação, aquele desejo de viver por algo.
Olha, Renato, com o tempo os ideais vão virando memórias... E ainda assim a gente tem que se dar por satisfeito quando viram, porque tem gente que nem isso tem mais, acaba esquecendo é tudo. Mas eu lembro dos meus... Eu idealizava tanto, eu sempre chegava mais perto pra ver o bonito ficar mais bonito, e mesmo quando, na grande maioria esmagadora das vezes o bonito idealizado se transformava num horroroso, eu estava lá, feliz, porque tinha pelo menos tentado, e não podia ser tão feio assim, tudo tinha lado bom. Mas agora, meu amor, agora tudo é passado. Dizer que não existe lado bom na vida é mentira, seria muita ingratidão da minha parte, sendo que eu tenho você, as suas irmãs, sendo que eu tenho tanto na minha história, mas chega uma hora em que tudo o que é a parte boa da vida fica pra trás, e a gente tem que aceitar a parte oposta à vida. Eu estou aceitando a minha morte, muito contente e satisfeita por ter tido uma vida assim tão cheia de ideais, e sabe por quê? Porque eu tive ideais, e porque eu lutei por eles, sim, por mais que eles não correspondessem à verdade inevitável que vinha depois e pousava sobre nossas costas. Eu vou embora feliz, porque de longe assim, a vida até parece uma coisa linda, e agora eu já tenho aqueles ideais todos desistentes, num sofá de espera do purgatório, e eu prefiro mesmo é não criar mais expectativas sobre aquilo que já é bonito. A certeza e a seriedade da morte já me conquistaram.
Adeus, meu filho.

sábado, 23 de novembro de 2013

Temas

Há uma rachadura no teto
Que é o mapa de nossa ruína
Há sobre os mortos concreto
Como se não bastasse a chacina

Há uma camisa amassada no chão
Porque talvez o amor ainda exista
E há também o velho amar em vão
Pois não há amor que à vida resista

Há setenta e duas gotas de chuva
Que sobre nós caíram durante a noite
Há ainda uma estrada sem curvas
Dizem que segui-la é um enorme açoite.

Há cheiros impregnados na pele
Suas essências em longas memórias
Cheios do sentir que a alma expele
Cheiros fortes do suor de glórias

Há em toda desgraça comédia
E nem em toda comédia há graça