Primeiro, a menina corajosa se escondeu atrás do móvel. Não queria aparecer de novo, mas não porque tinha medo, e sim porque... Bem, talvez fosse por ter medo, sim. Afinal de contas, por que as meninas corajosas não podiam sentir medo, às vezes? Tinha medo, a menina corajosa. Muito medo, e não somente do que pudesse ameaçar sua coragem e seu valor inquestionável, como também - principalmente - daquilo que tentasse, de má fé, extinguir por completo seu medo. Na verdade, ela tinha muito mais medo de pensar sobre deixar de ter medo, do que de qualquer outra coisa.
No fundo mesmo, a gente tem sempre dessas coisas, de se contradizer. Apesar de não parecer, por exemplo, a paciência, de vez em quando, se fantasia de pressa, e a pressa de paciência, e a repressão de desejo, e o desejo, de repressão, e assim por diante, até que nossa cabeça dê um nó e a gente não tenha outra opção a não ser finalmente deixá-la quietinha, sem pensar muito, enquanto o resto do corpo tenta segurar as pontas por sua conta e risco.
É certo que quando isso acontece, invariavelmente, algo há de dar errado; a cabeça é que foi feita pra pensar, e não o resto das pontas do corpo. Mas supondo que segundo os preceitos das grandes linhas de produção industrial (um claro exemplo de péssimo exemplo a ser citado, neste assunto), nada é insubstituível, em certos casos o melhor a se fazer é esquecer a função das pontas do corpo, e deixar mesmo que tudo siga religiosamente o tortuoso caminho da falta de caminho a ser seguido.
Dessa forma, a covarde menina, num ato de extrema coragem, deixou sua cabeça de lado, segurando as pontas com as outras pontas do corpo, e seguiu feliz o mais aterrador de seus medos: o de segurar as pontas, com outras pontas, ao mesmo tempo em que as entregava todas de uma vez a um terrivelmente imprevisível destino... Sem pontas.
domingo, 18 de janeiro de 2015
Acidez
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Plano Premium
Contabilizando a gentileza humana
Algumas das coisas muito difíceis (porém não impossíveis) de se contabilizar podem surpreender por serem, justamente, incontáveis. uma delas, por exemplo, é a gentileza humana. Não se contabiliza, até onde se aprende nas aulas de matemática do ensino fundamental ou dos estágios intermediários dos cursos de inglês, esta virtude raramente presente nos mamíferos de polegares opositores. No entanto, é importante ressaltar a não-impossibilidade de se contabilizá-la. Caso não tenha ainda compreendido, pegue a calculadora mais próxima, atire-a contra a parede, livrando-se dela o mais rápido possível, e venha se aventurar no fantástico mundo exterior das relações interpessoais.
Imagine-se adentrando um ônibus. Isso mesmo, aquele veículo de transporte público que preza pela locomoção coletiva ao invés da individual, pela qual pagamos agora três reais e cinqüenta centavos para utilizarmos. Imagine que você passa a catraca, ainda reclamando por esse absurdo aumento que há de gerar mais lucro para camadas da sociedade as quais você jamais pertencerá.
Agora, depois da catraca, você avista um banco, dirige-se a ele, pede educadamente uma tímida "licença" a quem está do lado, e por fim, senta-se ao lado deste semelhante seu, um outro ser exatamente como você, e ainda assim, provido de toda a sua individualidade, quiçá a característica mais fascinante dos seres de nossa espécie. Até então, estão absolutamente em harmonia. Independentemente de credo, classe social, gênero, cor, orientação sexual, vocês são dois seres da mesma espécie, e ponto. Exatamente como você ignora por completo o histórico político-econômico-social-psicológico deste ser, ele também ignora o seu, e por enquanto é o que tem em comum, além da espécie e consequentemente os medos e desejos inerentes a ela, talvez um punhado de características físicas, mas só.
Eis que nessa paz, de apenas sermos quem somos e deixarmos ser quem quer que seja, sem questionamentos, surge um atentado ao prosseguimento da situação, que mudará por completo a forma como você encarou os fatos sobre aquele ser ao seu lado. Que mudará talvez até mesmo a sua fisionomia, para o resto do dia. Que mudará até mesmo a sua fé na natureza humana. Um ato de radicalismo, um ato de extrema gentileza.
Utilizando-se de seus fantásticos polegares opositores, o ser ao seu lado abre o zíper de uma bolsa, estes dois últimos, provas concretas da modernidade e do comportamento social pós-moderno, e de dentro da bolsa ele tira nada mais, nada menos que: um tablete de aproximadamente quinze centímetros de pé-de-moleque. Embalado. Acabou de sair da lojinha de um real. Provavelmente, foi fabricado em alguma cidade do interior, talvez até mesmo tenha vindo de outro estado. A pessoa abre o pacote. Perfeitamente normal, sim. Até o momento em que, num súbito ataque de simpatia aterradora, ela se vira para você e diz, num sorriso tranquilo: "aceita?"
Seu mundo é, neste momento, o submarino do capitão nemo, imergindo e emergindo sem controle num oceano de profundos sentimentos misturados, mas tudo acabou ali. Não houve cantada, não houve interesse, não houve sequer alguma outra intenção, naquela pequena palavra, além do puro oferecimento de um doce a uma pessoa desconhecida. Sim, é dificílimo acreditar, mas foi assim mesmo, um simples oferecimento, desprovido de qualquer malícia. Você tem vontade de chorar, você tem vontade de sorrir, pulando e se jogando num gramado inacreditavelmente verde e saudável, e correr de mãos dadas com aquele ser humano fabuloso ao seu lado, abraçá-lo fortemente, para que ele saiba o quanto é maravilhoso o que acabou de fazer pela restauração diária de fé na humanidade.
timidamente, você sorri de volta, dizendo baixinho: "ah, não. Mas muito obrigado/a". E sua vida segue, contabilizando incontáveis créditos de gentileza, internamente.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
O dom e a eterna sacanagem divina
Aparentemente, este planeta super cafona e decaidinho que chamamos de lar está dividido em três grupos de pessoas, respectivamente apresentados em ordem crescente da quantidade de membros: o das pessoas com bom senso, o das que são frouxas e não opinaram e por último, o maior grupo: o das pessoas que acreditam em dons.
Diz-se do dom, no dicionário de língua portuguesa cujo nome não vem ao caso: "SM. 1 dádiva, presente. 2. Qualidade inata [...] 4. Poder. [PL.: dons]". Basicamente, portanto, a maior parte da população mundial acredita que Van Gogh teria, em algum dado momento de sua triste vida, recebido um presente que o tornou um carinha talentoso o bastante para criar belas pinturas, por exemplo.
Não que haja efetivamente um problema em acreditar nisso; é até uma crença bastante plausível, sob a nossa condição mortal, afinal, para deixar de ser plausível, as crenças devem teoricamente levar seu crente a ceifar o direito essencial à vida de outrem, mas provavelmente passa a ser um pouco constrangedor quando seus tios e/ou avós começam a acreditar que por ter andado ou balbuciado algumas palavras antes do tempo, você seja com certeza um ser agraciado com algum tipo de genialidade bizarra como as daqueles caras que comandam empresas de software bilionárias.
Pois é, a parcela da população crente em dons celestiais comete algumas gafes. Talvez você tenha se frustrado um pouquinho ao descobrir que pós-doutorado em física quântica das ciências iônicas da galáxia paradoxal não combinaria com quem você queria ser, justamente por causa da crença; às vezes, ela pressiona um pouco a gente. Mas não se sinta mal por isso, de forma alguma. Ser corretor de imóveis também é OK, e talvez você nem fosse feliz estando em outra situação, não é mesmo?
No entanto, em meio a tantas peculiaridades existentes na crença de dons, mais do que na da meritocracia e menos do que na da cura gay, há um certo efeito negativo, e ele se dá quando o indivíduo crente retira de seu vocabulário a prática e a experiência, para reduzir (ou aumentar?) tudo à decorrência de dom.
Vejamos, tudo bem acreditar que uma entidade superior tenha conferido a cada pequeno ser alguma habilidade específica. Todavia, será praticamente impossível não sentir ao menos uma pontinha de curiosidade a respeito de como e por que diabos esse camarada superior teria presenteado algumas pessoas com dons um tanto... Exóticos (a exemplo daquela sua amiga que decorava placas de carros de todos os professores do ensino fundamental, do seu colega que toca a língua no nariz ou até mesmo da sua prima que consegue fazer bolas de chiclete maiores que o próprio rosto).
Torna-se, por fim, uma paranóia agonizante, imaginar que o ser superior que te fez uma grande decoradora de placas de carros, um cara que toca o nariz com a língua, ou uma fazedora de bolas de chiclete, estava na verdade meio entediado e resolveu fazer umas sacanagens com seus seres inferiores.
De qualquer forma, o importante mesmo é não ceifar o direito essencial à vida de ninguém. Não tanto por grandes motivos, mas mais por ser plausível em suas crenças, numa boa.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
A perda da graça
Ao que tudo indica, durante muitos séculos de pesquisa sobre o comportamento da espécie humana, concretizou-se a ideia de que nossa sina biológica, que os mais ousados chamariam ciclo de vida, resumiria-se apenas a quatro eventos citados e difundidos em escolas, igrejas e na interminável fila do açougue da vila: a gente nasce, cresce, reproduz-se e morre, deixando os filhos feitos na terceira fase ( se bem que muitas vezes a segunda e a terceira fase possam vir a inverter-se, mas não vem ao caso) ao deus dará.
No entanto, teorias um tanto mais sofisticadas, por assim dizer, foram muito além para nos mostrar que estivemos perdidamente enganados acerca desta infame listinha de verbos inerentes ao ser humano; de certa forma, provou-se por a + b, como 2 e 2 são 4, que na verdade nosso ciclo de vida, como dizem os caras de pau, teria um outro ato a mais, nas imediações da segunda fase oficial - o crescer -, apesar de o tempo não ser certeza, ao qual chamamos carinhosamente "perder a graça".
Não se descobriu a princípio com muita exatidão, sob qual circunstância perdemos a graça; muitos diriam se tratar do aniversário que não tem mais importância, outros alegariam que para si, perderam a graça quando deixaram de sair de casa sem guarda-chuva, ou até mesmo houve quem dissesse que nada era mais sinônimo de perder a graça do que o matrimônio da legislação monogâmica, mas o certo é que esta aparentemente simples descoberta causou nos cientistas um grande reboliço, e inclusive, um leque de outros teoremas foi aberto com esta possibilidade, uma vez que a partir deste novo conhecimento, desta verdadeira inovação científica, como já é de se esperar sempre, após qualquer evento terreno, os cientistas e pesquisadores ganharam cada vez mais empregos, enquanto os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas os perderam à mesma proporção, porque estas são as regras do jogo.
Surgiram enfim, como pipocas estourando na panela, as milhares de vertentes do estudo sobre o quinto possível elemento no comportamento biológico do ser humano. Alguns destes, como por exemplo o estudo acerca do momento da vida em que perdemos a graça, questionavam, como não deve ser difícil deduzir, a data em que esta fatalidade nos acontece.
Foi quando os cientistas dividiram-se entre os que acreditavam tratar-se de um evento localizado entre o nascer e as primeiras palavras, estando portanto antes do crescer na sina da vida, e outros, que juravam de pés juntos que a perda da graça começaria a apresentar seus sinais visíveis após o sexto copo consecutivo de cerveja, podendo-se localizar tanto antes, quanto depois do crescer - ou do reproduzir, já que os descendentes puxam muito da graça humana.
Os votos também variavam entre os que relativizaram tanto a coisa ao ponto de acharem que a perda estaria após a morte. A justificativa dada a esta possibilidade foi a de que "memórias póstumas de Brás Cubas" seria uma obra muito entediante, porém esta teoria foi logo quebrada com o argumento sobre a especulação do estereótipo do cientista que odeia literatura.
De qualquer forma, o mais impressionante em toda essa história incrível continua sendo, sem dúvidas, o fato de que, em absoluto, todos os cientistas empenhados em descobrir mais sobre como, quando, onde e por que o ser humano perde a graça, já haviam perdido as suas graças de forma integral havia muito tempo, e seria de fato dificílimo fazer qualquer piada que fosse, sobre, para ou com eles. Daí então, mais uma vez os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas, como já é parte do ciclo de vida dessas subespécies quase-humanas, perderam seus poucos empregos (que pode ser o quarto ou terceiro ato na listinha infame de verbos inerentes a estes seres, mas não deixa de se fazer presente).
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Ideal Vencido
Antigamente, quando eu tinha a tua idade, eu até achava que as coisas ficariam mais bonitas quando olhadas mais de perto, quando eu as olhava de longe. Era sempre assim, eu começava de uma boa distância, observando bem, interpretando do meu jeito de criança, criando tantas expectativas pro futuro e idealizando aquelas imagens, aqueles pedaços da vida, que me davam uma vontade louca de ir chegando mais perto, porque a expectativa é mesmo essa droga que faz com que a gente volte a ser criança de tanta curiosidade. Ah, Renato, como eu era ansiosa, assim que nem você, mesmo, né? Quando tu era bebê, as moças da cozinha sempre vinham até mim ao final do dia dizendo algo como: "ah, mas esse moleque é impossível, não tem jeito, de tão curioso qualquer dia ainda arruma pra cabeça", e eu ria, meio orgulhosa.
Mas você sabe, o meu orgulho acabou-se. A minha ansiedade não tem mais motivos pra existir, meu filho, pelo simples fato de que naquela época eu tinha a persistência das crianças, mas a gente vai crescendo, vai arrumando mesmo um monte de coisa pra cabeça, e aos poucos, percebe que essa persistência infantil é só algo que assim, personificando a própria infância, até cresce dentro da gente, mas cresce livre, de um jeito que pode mudar e virar uma coisa completamente diferente do que era no começo, pode virar do avesso, e virou. Hoje em dia, essa persistência, que até a pouco tempo ainda me fazia continuar me aproximando do mundo pra ver se ficava mais bonito de perto, virou uma terrível consciência de que só vai haver desilusão. Os ideais, Renatinho, ah, eles estão tão cansados... Mas também, pudera... Foram tão surrados, não é? Teve a ditadura, teve o câncer do teu pai, teve tanta coisa que eu aliás já tô tentando esquecer, que eu fico até com dó dos pobres coitados dos ideais.
Ah, onde eles estão? Devem estar todos amassados naquela cristaleira onde a gente guardava os bibelôs de árvore de natal, aonde todo fim de ano eu ia, abria a portinha, pegava os ideais de novo e colocava na cabeça para serem flagelados novamente no ano seguinte: regime, vida nova, sexo, economia, intensidade, ah, uma mistura imensa, acho até que uma coisa virava exatamente o oposto da outra, ficava tudo uma grande bagunça e lá pra maio os ideais voltavam todos escondidinhos pro cantinho deles na cristaleira. Maio é um mês ingrato, um mêzinho miserável, mesmo. Porque pior que qualquer extremo é o meio, e pior que o meio é o meio do meio. Maio é tão meio que parece meio até no nome, olha que desgraça. Em maio acontece sempre alguma besteira, incrível. E foi em maio que ele se foi, o teu pai, o único homem que eu amei na vida. Ele sim foi alguém de ideais inabaláveis, e é bem provável que essa era a coisa que eu mais amava nele, aquela obstinação, aquele desejo de viver por algo.
Olha, Renato, com o tempo os ideais vão virando memórias... E ainda assim a gente tem que se dar por satisfeito quando viram, porque tem gente que nem isso tem mais, acaba esquecendo é tudo. Mas eu lembro dos meus... Eu idealizava tanto, eu sempre chegava mais perto pra ver o bonito ficar mais bonito, e mesmo quando, na grande maioria esmagadora das vezes o bonito idealizado se transformava num horroroso, eu estava lá, feliz, porque tinha pelo menos tentado, e não podia ser tão feio assim, tudo tinha lado bom. Mas agora, meu amor, agora tudo é passado. Dizer que não existe lado bom na vida é mentira, seria muita ingratidão da minha parte, sendo que eu tenho você, as suas irmãs, sendo que eu tenho tanto na minha história, mas chega uma hora em que tudo o que é a parte boa da vida fica pra trás, e a gente tem que aceitar a parte oposta à vida. Eu estou aceitando a minha morte, muito contente e satisfeita por ter tido uma vida assim tão cheia de ideais, e sabe por quê? Porque eu tive ideais, e porque eu lutei por eles, sim, por mais que eles não correspondessem à verdade inevitável que vinha depois e pousava sobre nossas costas. Eu vou embora feliz, porque de longe assim, a vida até parece uma coisa linda, e agora eu já tenho aqueles ideais todos desistentes, num sofá de espera do purgatório, e eu prefiro mesmo é não criar mais expectativas sobre aquilo que já é bonito. A certeza e a seriedade da morte já me conquistaram.
Adeus, meu filho.
sábado, 12 de outubro de 2013
"O Tempo" Seria Um Título Deveras Criativo E Original Para Isto. Hmm...
- Beleza, Newtão, e você?
- Ah, tranquilo, tranquilo. Cara, cê não vai acreditar. Eu tava lá, tirando uma soneca debaixo daquela macieira ali, quando de repente, caiu uma maçã bem em cima da minha cabeça, e aí eu comecei a pensar aqui... Cara, o que faz as maçãs caírem? A gravidade, cara, a gravidade!
- Hã?
(Fragmento de conversa entre Isaac Newton e um amigo seu, 1686).
Por fim, é por isso e por mais um pouco que nada é verídico. Nem o tempo, nem o vento, nem os historiadores, nem os físicos, nem as balelas que eles contam, nem os xavecos que eles passam, nada. Logo, vamos todos de mãozinhas dadas, aceitar que tudo não passa de... Sei lá do que não passa, aquele abraço.
sábado, 21 de setembro de 2013
Acontece...
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Especial Dia Dos Namorados - Conte Aqui Seus Problemas Amorosos
Agora, se ele ou ela já estiver compromissado (a), cuidado: "tenho ciúmes da ex-namorada dele, porque estamos juntos há um ano e meio e ela continua ligando e dando em cima dele. Ela é simplesmente louca." Veja bem, você que está aí nessa situação difícil, ex-namorada louca: temos uma vasta lista de carentes e disponíveis logo neste doze de junho: "não tenho namorada", "meu amigo pega todas e não sobra nenhuma para mim", "há um ano que eu não faço sexo, não tomo uma garrafa de pinga e nem como um pão de queijo" (o que deve ser de fato uma tristeza específica), "ela já é passado, bola pra frente", e por fim, "faz tempo que não arrumo mulher", disse o Thales. E atenção, por favor, porque esta foi a sessão de 'homens a procura', mas a de mulheres também está aí bem firme e forte, para quem quiser ver: "tô sem namorado", "fui traída e estou solteira", "tô solteira", "preciso encontrar um namorado", "ninguém me quer" (isso foi no mínimo triste), "acabei de pedir um menino em namoro e ele não aceitou" (aproveitem que ela deve estar vulnerável, vão, vão, grande chance), "tô divorciando, ele é uma pessoa maravilhosa mas não quero mais saber dele", e assim encerramos a sessão de agência de relacionamentos. Vamos agora aos depoimentos mais detalhados do dia, a começar pelo meu amigo com quem já converso pela segunda vez: "as provas do Mackenzie são difíceis e não deixam a gente se ver. Ela estuda Direito." Depois, um problema não tão amoroso assim, mas com o qual me identifiquei um pouco, vindo de uma desenhista que como agora mesmo vi pela internet, possui uma página destinada a trabalhos artísticos bem conhecida no facebook (por sinal, ela fez a grande gentileza de soltar uma divulgação bacana deste adorável blog por lá, e a página em questão chama-se "ARTatte"): "meu problema é que eu sou desenhista e tenho de vestir uma camiseta de anúncio na rua." Um problema grande mesmo é que por essas bandas, para ser pensador, é preciso ganhar dinheiro antes. Enfim, agora, as peripécias de uma moça que não sabe ao certo o que fazer: "conheci um cara no trabalho e começamos a conversar. Depois de um tempo percebi que toda vez que ele vinha me ver, tirava uma aliança do dedo, e resolvi procurar pelo nome no facebook. Vi que ele tinha namorada, mas ele negou e eu ignorei. até que depois de algum tempo acabei ficando com ele, mas o namoro continua, e agora eu realmente não sei o que fazer a respeito. Faz algum tempo que a gente não se fala, e ele ainda namora."
E agora, para finalizar este dia tão... Amoroso, uma linda, comovente e triste história, de amor, paixão... E raiva, de João:
"Eu a conheci num bar, tinha 22 anos. Disse pra ela que a gente ia casar, que ela era a mulher da minha vida, mas ela disse que era casada. Falei que então ela largaria o marido, mas a gente se casaria. Daí então, ela foi ao banheiro e eu fiquei esperando até que ela saísse de lá. Quando isso aconteceu, eu a peguei no colo lhe dei um beijo. Sabe quando cê sente de verdade que é amor? Aí, depois de um tempo, a gente começou a ficar, e namoramos por dois anos, mas ela não largou do marido. Eu disse milhares de vezes pra ela se separar dele e ficar comigo, mas ela dizia que ele tinha emprego, estabilidade e eu era um menino. Por isso, virei fotógrafo e fui à Nova Iorque com mil dólares no bolso para ganhar dinheiro. Quando voltei, disse novamente à ela que deveria escolher entre ele ou eu, mas ela nunca me ouvia, e ficava sempre correndo atrás de mim. Eu dizia 'meu, não vem atrás de mim', mas ela vinha. Eu falava que não queria mais vê-la enquanto ela não resolvesse o que queria fazer com sua vida, e quando eu chegava ao aeroporto, quem estava me esperando? A diaba. Até que eu não aguentei mais e mandei ela ir se foder."
Beleza, uma boa noite aí, para todos vocês! Fui.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Conte Aqui Seus Problemas [5]
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Conte Aqui Seus Problemas [4]
terça-feira, 21 de maio de 2013
Conte Aqui Seus Problemas [3]
E ali mais a frente, encontrei um camarada em apuros, que apontou para sua pretendente e disse: "esta garota não gosta de mim". Puxa vida, eu disse. Dê uma chance ao rapaz, moça. Ainda na mesma sessão, encontramos lá na Rua Augusta um jovem rapaz em situação desagradável: "minha ex-namorada terminou um noivado há pouco tempo porque ainda gosta de mim. Só que agora eu estou namorando". Essa é aquela coisa dos amores platônicos e idealizados, quando é possível não tem graça. Também existe aquele velho problema chamado "ex-namorada".
Mas nem tudo acaba em amor. "Sou muito pervertida e só penso em sexo o tempo inteiro", "tem muito pão com ovo se achando big mac" e "minha mãe me chama de vagabundo" foram as frases sem dúvida mais... Tocantes de hoje. E por falar em Big Mac, na hora do lanchinho visitei um Mc Donald's por pura falta de vontade de procurar algo melhor para comer (porque particularmente, meu problema é com a montagem dos lanches do Mc Donald's, que é péssima e muito provavelmente possui algo contra mim, já que meus lanches estão sempre mal feitos), e adivinhe só você que um atendente de lá não se aguentou e desabafou: "não aguento mais esse lugar, é um inferno. Adoro todos os meus colegas, mas não tenho nem vida social". E aí então, entramos, por fim, na sessão mais esperada: dinheiro, trabalho e, consequentemente: problema!
"Trabalho de segunda a segunda, estou cansado e estressado", foi o que disse alguém ali perto do MASP. Mas é claro que para se ter um problema com o trabalho, não é preciso trabalhar de segunda a segunda. Tem gente por exemplo que assumiu ser o próprio trabalho o maior problema. A falta de dinheiro reinou: "dívida de R$50.000,00, dívidas de R$5.000,00, falta de dinheiro novamente, "a empresa não paga meus direitos", "fui demitida pois minha chefe não gostava de mim", "estou sem dinheiro, vou ser pai, pagar pensão e vai ser menina", "tenho um filho para criar e fui despejado" e mais uma vez, volta à pauta o tal do Mc Donald's: " a administração do Mc Donald's é péssima, a cada dia surge uma regra nova só pra complicar nossas vidas, isso atrapalha muito a gente". Poxa, Mc Donald's...
"Tenho vergonha de conversar em público" foi o que disse um daqueles homens que abordam pessoas na rua para tratar de causas sociais. Paradoxos, paradoxos...
E então, a Bruna queria dizer que há 2 anos largou seu emprego fixo, onde ganhava bem, para trabalhar na rua, sem saber se ganharia algum dinheiro (por que ela fez isso é algo que você não precisa se dar ao trabalho de me perguntar, pois eu não faço a mínima ideia). Hoje, ela sente dores nos pés e está sem dinheiro. Exatamente igual a mim, exceto por um único detalhe: ela assumiu ser promíscua e trair muito o namorado, enquanto eu estou aqui, muito bem... Com a minha placa.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Conte Aqui Seus Problemas [2]
Demorou para encontrar, mas é claro que teve reclamação do juiz ladrão. Nem sempre o apito amigo entende de quem ele é amigo, uma pena. Lamento por isso, amigos corinthianos. Mas, como eu não sou, ao contrário do que todos falam a respeito dos são paulinos, uma má perdedora, devo reconhecer também um camarada são paulino que disse estar desapontado com o time. Tem motivos para isso, é claro. "Meu time está muito ruim, tenho que usar a camisa de outros clubes. Trânsito também é um problema, e por isso, eu sou um cara que se atrasa, sempre. Sempre atraso pelo menos meia hora para chegar a qualquer lugar, mas a minha namorada consegue ganhar de mim. Chego meia hora atrasado, mas ela consegue chegar duas". Complicado.
E por último, mas não menos importante, estando eu em frente ao metrô consolação, eis que me surge um rosto muito familiar. Minha irmã, que disse ter um problema do qual discordo, pois acho que é justamente uma solução para todos os problemas da vida: "tenho uma irmã estranha que pergunta sobre os problemas das pessoas na rua". Fantástico, obrigada, São Paulo!
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Conte Aqui Seus Problemas
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Filhinho,
- Filhinhô, fala ma-mãe. Ma-mãe. Coisa linda!
- Filhinhô, vem cá, vem. Assim, um pézinho primeiro.. isso! Parabéns!
- Filhinhô... tira a mãozinha daí, tira...
- Filhinhô... não põe isso na boca não, faz dodói!
- Filhinho, sai de traz do fogão, sai!
- Filhinho, acorda, hora da escolinha.
- Filhinho, acorda, hora da escola.
Filhinho...
- Filhinho, que notas são essas, hein?
- Filhinho, senta aqui que a gente precisa conversar...
- Filhinho, onde é que você vai? - minutos e explicações depois - nada disso, nem pensar, filhinho.
Filhinho, filhinho...
- Filhinho, tem certeza que você quer isso mesmo?
- Filhinho, estou tão orgulhosa...
- Filhinho, hoje você vai dormir em casa, né?
- Filhinho, que é isso aí no seu bolso?
- Filhinho, quem é esse aí na foto? E aquela?
- Filhinho, quem é essa?
- Filhinho, ela não é meio... estranha?
- Filhinho, e a faculdade, como vai?
- Filhinho, terminou com ela? Ainda bem.
- Filhinho, outra? Assim, de repente? É boa moça?
- Filhinho, a de antes era tão mais legal...
- Filhinho, espera um pouco, vocês são tão jovens, tem certeza?
- Filhinho, você sabe que pode voltar quando quiser, né?
- Filhinho, ela cuida bem de você?
- Filhinho, como assim, "filhinho"?
- Filhinho, quando é que vocês vem?
- Filhinho, papai está muito mal...
- Filhinho, eu estou muito mal...
- Filhinho, adeus.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
A Mão
A mão chegou perto, e ainda que algo a puxasse, só continuava pois ainda não tinha aonde ir. Não percebia, apenas vivia aquela busca por nada. Tocaram-se.
Mas foi sem querer, do nada, como podia aquilo? Um simples toque. Tudo aquilo.
O toque foi involuntário, mas mais involuntário foi o que o seguiu. Uma sequência, uma frequência, só de toques, entre aquelas duas mãos, agora um tanto úmidas de um suor repentinamente frio; muito ávidas daquelas toques instintivamente quentes.
Passou a primeira mão a envolver a segunda com seu gesto um tanto -muito- evasivo. Ela cedeu, ainda que fingindo não perceber. As respostas eram impulsos, os impulsos tomaram consciência. Uma consciência meio escondida, uma distração. Os olhos seguiram a mão. Encontraram-se. Um impacto, quase vacilaram, os olhos, subitamente começando a pensar em olhar para outro lado, mas a curiosidade era maior do que a própria hesitação involuntária. Mantiveram um mesmo olhar, curioso, impreciso, um tanto vacilante, mas sempre ali, no outro. Tentaram entender. Foi impossível.
Que era aquilo? Quem era aquela? Só pôde continuar ali, olhando para ela, com as mesmas mãos, agora ligeiramente trêmulas. As mãos estavam bem ali, como sempre estiveram, talvez esperando, talvez apenas estando, mas não importava, nada importava além daquilo, além das mãos. Envolveram-se mais e mais, sem desviar o olhar, e seguraram uma a outra, com força. Nada era dito, e nem de dizeres havia necessidade, naquele mar de obsolências abstratas que chamavam vida -isso antes daquele momento, mais tarde seu significado viria a mudar- a não ser, aquele momento. A não ser aquelas mãos.
domingo, 30 de setembro de 2012
Falhas
As gerações atuais preocupantemente entendem por feminismo uma explícita (explícita sim, a quem ainda detiver a capacidade de pensar claramente) depreciação da imagem feminina, tomando-a erroneamente por bela.
O exibicionismo gratuito do corpo feminino vem sendo aplicado à sociedade de maneira subliminar, tendo como desculpas a pobreza e a sub cultura característica dos morros e comunidades carentes brasileiras, assim como tantos outros comportamentos deploráveis que o pobre tem, usando sua condição social como pretexto para tal.
é de fato muito cômodo fazer uso dessas tais condições de modo a causar impacto na sociedade, e o pobre descobriu isso. Acontece que tais impactos não prejudicam apenas a sua vida, como também a sociedade de modo geral.
Enxergar como patrimônio cultural nacional algo imoral não é inconcebível, antes, observa-se já atualmente esta consideração; o inconcebível da situação é permitirmos que se façam usuais as facilidades fornecidas pelo próprio Estado a essa cultura de violência, comodismo e animalizado que contribui infinitamente para a desmoralização do cidadão de bem.
Não existem preceitos quando se trata da "arte" aplicada, mas sem dúvidas existem, e não devem continuar sendo ignorados, preceitos concernentes à educação e à própria dignidade humana, que, não é necessário muito para se enxergar, está sendo ofuscada pela alienação da massa e torna-se obsoleta em nosso país.
Existem preceitos quando se trata do futuro da nação. Existem preceitos quando se trata de real incentivo à cultura e projetos sociais de eficiência e qualidade. Existem preceitos quando se lembra que somos seres racionais, adaptáveis e sofredores de diversas evoluções, e que temos em nossas veias, necessidade viva em correr atrás de nossas próprias evoluções.
E ignorar estes preceitos é o que mais torna falhos os nossos programas de governo, nossa educação e nosso planejamento familiar, causando os problemas sociais que estamos habituados, acostumados e acomodados a ver sem procurar solução, fazendo piadas a respeito, como se não interferisse diretamente em nossas vidas.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Retrato Melhorado
- Assim, de errado, nada. Por que a pergunta?
- Estou cansado. Provavelmente não sei mais do que estou falando.
Sempre sabia do que falava, ela pensou. Sentada de frente para a penteadeira, tirava agora os brincos, enquanto ele a fitava com algo que apenas não demonstrava sentir.
- Você parece cansada também.
Um dos brincos caiu quando ela foi colocar sobre a penteadeira. Abaixou-se para pegar e ele permaneceu sentado, uma mão jogado ao ar, a outra pressionando o copo contra o peito, ainda forte em virilidade e sadio. Bebeu pelo canto da boca um gole do uísque que fora mais aprazível, um dia.
- Ando apenas um pouco enfadada, Roberto. Nada demais.
- As crianças do coral?
- Também.
- Lhe aborrecem muito?
- Nada demais, já disse. E você?
- Eu o quê?
- Você está assim por quê?
- Trabalho, não importa - Deu de ombros - Perguntei primeiro.
Abriu de leve aquele sorriso cínico entortando os lábios, costumeiro quando se davam seus gracejos.
Ela ria, olhando para ele pelo espelho da penteadeira, enquanto se ajeitava calmamente. Ele ainda tinha seu charme, aquelas mangas da camisa bem dobradas e as feições inteligentes e sarcásticas, embora ligeiramente envelhecidas, ainda transmissoras de peculiar altivez.
- Você é engraçado. Ainda.
- Não diga - Coçou o queixo, não muito surpreso.
- Começa essas observações aleatórias e nunca se sabe onde vai parar.
Deixou de lado os brincos, a escova de cabelo e o próprio espelho, virando-se na cadeira para botar firmes e atentos os grandes olhos azuis sobre ele, como fazia ao tentar adivinhar o que ele pensava. Ele se mantinha estático em sua condição irônica beirando uma excentricidade meio misteriosa, meio "meia-idade", e no riso retorcido franzia a testa, de graça, desconcentrando-a de uma vez, ao arrancar dela uns bons sorrisos. Dentro dele, porém, aqueles olhos é que eram os do desconcerto.
Sentiu-se vivo ali algo que por vezes parecia meio agonizante, meio moribundo. Sentiu-se quente e vivo.
- Eu te amo. Ainda.
- Você e isso de "ainda". Coisa daquele seu amigo que parece amiga.
- Por que tanta perseguição com ele, ciúme?
- Ora, vamos, nada disso.
- O que, então?
- Não é ciúme, minha cara. Ledo engano. Acho apenas companhia desnecessária a da pessoa dele.
Ele agora se mexia um pouco na poltrona, talvez um pouco desconfortável, até arrumar-se por fim com a perna direita sobre a esquerda, ambos os cotovelos sobre os braços do estofado, cruzando-se as mãos no ar, fechando uma espécie de base onde apoiou o queixo, muito austero, observando-a falar e mexer o cabelo. O copo, deixou sobre uma mesinha.
- Mas não disse que me ama.
- Não preciso dizer, sei bem disto e você também sabe - as mãos firmes faziam o rosto subir e descer quando falava, uma cena um tanto cômica - As palavras por vezes não se fazem necessárias, posto que são apenas consequências.
- Consequências de que?
- Dos fatos.
- E os teus fatos, quais são?
- Estes teus olhos curiosos que você tem aí na cara. Eles são os meus fatos.
Continuaram a se olhar, ela agora mais satisfeita, com seu belo vestido de renda de tom pastel, uma mulher elegante. Ele a pediu que o tirasse.
- Que você disse?
- O vestido, tire.
Tirou.
- Venha, aproxime-se - Bateu na perna, agora não estavam mais cruzadas, e sim abertas - Sente-se aqui.
Ela foi até ele, pegando o copo e arrematando o último gole do uísque. Sentou-se em seu colo. Mexiam um nos cabelos do outro.
- Então, diga que me ama.
Ele deslizou o dedos pela cintura, olhando fixamente em seus olhos, como se estivesse de fato hipnotizado pela embriaguez que eles particularmente possuíam.
- Não só te amo... como lhe faço ainda hoje um filho, ou não sou mais eu.
A Pulga
O gato, gordo e preguiçoso, a satisfazer estereótipo de criação humana ou divina, descansava pesado em alguma parte quente daquele ambiente, após o almoço que não lutara para conquistar. Por vezes, abria os olhos lentos de sono, a lamber alguma parte do corpo ou ajeitar-se mais confortavelmente, não se importando com razões ou essências.
As formigas da cozinha em austeridade incomparável engenhavam uma trilha, inscientes da perfeição que lhes era atribuída, galgando apenas, e apenas almejando um pouco para sua rainha de naturezas irracionais.
O açúcar era inato, mas se acaso fizesse graça de prosopopeias, seria de incomensurável aprazer que houvessem tão magníficas criaturas deleitando-se em sua monótona condição de ser figurativamente vivo.
Já o homem, ah, o homem... Dono de polegares opositores, vítima dos mais variados amores, pensador de furtivos ardores; o homem, nauseabundo diante de tão patéticos seres, altivo e detentor de sabedorias complexas e paradoxalmente irônicas entre si, permanecia sentado em seu trono de superioridade, arquitetando as mesmas coisas que ninguém ousava interpretar de outra forma que não fosse a própria, do ego. O homem nada sofria se não suas próprias dores; o homem em nada cria se não naquilo que lhe era conveniente crer; o homem abusava e nem mesmo se dava conta de que até o mal que a condição humana causava girava em torno de sua egoísta existência.
O homem imergia em profundos conflitos existenciais, ouvindo por melífluos os cantos mefistofélicos do ser.
E ainda assim, todos - os da raça humana, é claro - diziam e faziam repetir: "o homem é consciente, o homem é racional", como se fosse esta a maior gratificação deste belo universo de criações tremendas.
E enquanto isso, há pouca distância (no aspecto físico) daquele ser de obscuras entranhas, continuava a pulga a se alimentar do sangue do animal preguiçoso alimentado pelo homem, O Grande, até que por encargo de seu destino, tão fétido e tão inferior quanto seu próprio ser, simplesmente caiu morta, e morta ali ficou, no pelo morninho do gato, no colo arrogante do homem encerrando assim, o maravilhoso ciclo da biologia irracional.