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domingo, 18 de janeiro de 2015

Acidez

Primeiro, a menina corajosa se escondeu atrás do móvel. Não queria aparecer de novo, mas não porque tinha medo, e sim porque... Bem, talvez fosse por ter medo, sim. Afinal de contas, por que as meninas corajosas não podiam sentir medo, às vezes? Tinha medo, a menina corajosa. Muito medo, e não somente do que pudesse ameaçar sua coragem e seu valor inquestionável, como também - principalmente - daquilo que tentasse, de má fé, extinguir por completo seu medo. Na verdade, ela tinha muito mais medo de pensar sobre deixar de ter medo, do que de qualquer outra coisa.
No fundo mesmo, a gente tem sempre dessas coisas, de se contradizer. Apesar de não parecer, por exemplo, a paciência, de vez em quando, se fantasia de pressa, e a pressa de paciência, e a repressão de desejo, e o desejo, de repressão, e assim por diante, até que nossa cabeça dê um nó e a gente não tenha outra opção a não ser finalmente deixá-la quietinha, sem pensar muito, enquanto o resto do corpo tenta segurar as pontas por sua conta e risco.
É certo que quando isso acontece, invariavelmente, algo há de dar errado; a cabeça é que foi feita pra pensar, e não o resto das pontas do corpo. Mas supondo que segundo os preceitos das grandes linhas de produção industrial (um claro exemplo de péssimo exemplo a ser citado, neste assunto), nada é insubstituível, em certos casos o melhor a se fazer é esquecer a função das pontas do corpo, e deixar mesmo que tudo siga religiosamente o tortuoso caminho da falta de caminho a ser seguido.
Dessa forma, a covarde menina, num ato de extrema coragem, deixou sua cabeça de lado, segurando as pontas com as outras pontas do corpo, e seguiu feliz o mais aterrador de seus medos: o de segurar as pontas, com outras pontas, ao mesmo tempo em que as entregava todas de uma vez a um terrivelmente  imprevisível destino... Sem pontas.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Plano Premium

Todo rico tem problema de opinião. Seja a dele próprio (difícil) ou a da grande mídia que ele segue. E todos tem fascinação por pedantismo (um treco chatíssimo, típico de gente que é um verdadeiro porre e gosta de esconder sua ignorância em palavras bonitinhas). Rico dá opinião na economia, na política externa e no campeonato tailandês de bolinhos gourmet, mesmo sem entender porra nenhuma sobre tais assuntos. E opinião comportamental, também. Atualmente, eles dizem, como a desdenhar da evolução natural humana, tudo é uma bosta. No meu tempo era bem melhor, com ditadura, repressão política, sexual, enfim. O rico é o verdadeiro simbolismo do passado, o saudosista. Acontece que o rico – normalmente -  no passado só fez merda, explorou trabalhadores, estragou a própria família que tanto alega amar hoje em dia, dentre outros.
Como o sistema faz com que o pobre rico, com seu cérebro de avestruz, pense que só porque conseguiu viajar para a Europa, todos os outros seres humanos da face da Terra também conseguirão um dia, pra ele é dificílimo compreender que existe miséria no mundo, afinal, no condomínio residencial “riviera da puta que pariu”, gente diferenciada jamais entrará. O rico provavelmente se sente muito indignado quando vê gente diferenciada no bairro vizinho, que já desce um pouco a classe.
Normalmente, de dentro do seu blindado, ele reclama do trânsito (que ignora por completo como surgiu), dizendo que hoje em dia qualquer um pode ter carro. Uma pena, ele pensa. Deveria ser só para quem tem sangue azul. Aliás, o rico tem essa mania odiosa de condenar coisas que ele mesmo criou, só que colocando a culpa em outra camada da sociedade. Ele reclama por exemplo, que gente de cabelo alisado é muito feio, mas não se incomoda nem um pouco com o fato de essa cultura ser culpa única e exclusivamente da mídia que ele financia, e que se apropriou do conceito de ‘beleza’, fazendo todo mundo acreditar que o belo é o branco.
O rico quer ter a última palavra, quer ter razão. Razão sobre a forma como ofende os outros, por exemplo, está super na moda. Rico adora ofender e desrespeitar os outros, e depois dizer que apenas defende a “liberdade de expressão”. É quase a representação da high society. Até porque, a PM não vai matar menino branco, filho de rico, que mata casais homossexuais na rua. Então, pra eles, está tudo ok. Outro dia assisti um programa de uma emissora que gente rica adora, mas não lembro o nome, porque tive de ir vomitar antes de conseguir ver. Era sobre gente rica, fazendo as coisas babacas que costuma fazer, como por exemplo, dar festas bregas para mais de cinco mil convidados que com certeza eles nem conhecem, com o único intuito de mostrar ao mundo que tem dinheiro.  Chega a ser engraçado, e como roteirista de comédia, vou com certeza controlar minha ânsia para observar mais vezes o mesmo programa. Assim, já sei de onde tirar inspiração.
Mas voltando à questão da opinião, vale lembrar que todo rico fica muito irritado quando contestado. Coisa de gente mimada, até se esquecem da tal educação rica e preciosa que lhes fora dada, e soltam alguns palavrões bem cabulosos, que nem na quebrada a gente ouve. É que no fundo, no fundo, por mais repulsa que o rico tenha disso, ele não conseguiu ainda inventar um dispositivo iFuga, pra ver se consegue esquecer a mistura de carbono e lixo que todo ser humano é. E dá-lhe terapia, enquanto isso.
Porque rico adora uma terapia. Traí minha mulher, vou fazer terapia. Meu sócio me traiu, vou fazer terapia. Rico também adora a palavra traição, deve remeter ao passado monárquico, quando existiam questões de honra, valores. Aliás, está aí a terceira coisa que o rico também adora: honra e valores. Apesar de não ter escrúpulos, falar sobre escrúpulos é sempre muito legal para os financeiramente estáveis.
 Rico gosta de contar ao mundo sobre como subiu na vida, criou coisas, fez dinheiro. Tudo honestamente, isso é: passando os amigos para trás, humilhando seus funcionários e deixando a família em segundo plano. Mostra sua condição ridícula para todos que quiserem ver.
O que me fascina é o interesse deles. Ou melhor, a babaquice deles em acreditar em meritocracia. Não, isso não me fascina, acho que talvez seja o dinheiro. Ah, não. Nada me fascina no mundo dos ricos. Simplesmente os considero, a todos, um bando de imbecis, mesmo.
Mesmo sabendo que fizeram merda, eles querem justificar a merda que fazem. Estupro, assassinato, exploração: mentalmente instável, devemos nos resignar [rico adora ser mentalmente instável, eles nunca tem a consciência limpa]. Politicamente incorreto,  ofensas gratuitas a movimentos sociais, generalização: é só humor, não deve ser levado a sério [ricos acham que humor não tem função social, porque o humor que conhecem é o do Danilo Gentili e do zorra total].

Como eles são transtornados. Babo de inveja. 

Contabilizando a gentileza humana

Algumas das coisas muito difíceis (porém não impossíveis) de se contabilizar podem surpreender por serem, justamente, incontáveis. uma delas, por exemplo, é a gentileza humana. Não se contabiliza, até onde se aprende nas aulas de matemática do ensino fundamental ou dos estágios intermediários dos cursos de inglês, esta virtude raramente presente nos mamíferos de polegares opositores. No entanto, é importante ressaltar a não-impossibilidade de se contabilizá-la. Caso não tenha ainda compreendido, pegue a calculadora mais próxima, atire-a contra a parede, livrando-se dela o mais rápido possível, e venha se aventurar no fantástico mundo exterior das relações interpessoais.
Imagine-se adentrando um ônibus. Isso mesmo,  aquele veículo de transporte público que preza pela locomoção coletiva ao invés da individual, pela qual pagamos agora três reais e cinqüenta centavos para utilizarmos. Imagine que você passa a catraca, ainda reclamando por esse absurdo aumento que há de gerar mais lucro para camadas da sociedade as quais você jamais pertencerá.
Agora, depois da catraca, você avista um banco, dirige-se a ele, pede educadamente uma tímida "licença" a quem está do lado, e por fim, senta-se ao lado deste semelhante seu, um outro ser exatamente como você, e ainda assim, provido de toda a sua individualidade, quiçá a característica mais fascinante dos seres de nossa espécie. Até então, estão absolutamente em harmonia. Independentemente de credo, classe social, gênero, cor, orientação sexual, vocês são dois seres da mesma espécie, e ponto. Exatamente como você ignora por completo o histórico político-econômico-social-psicológico deste ser, ele também ignora o seu, e por enquanto é o que tem em comum, além da espécie e consequentemente os medos e desejos inerentes a ela, talvez um punhado de características físicas, mas só.
Eis que nessa paz, de apenas sermos quem somos e deixarmos ser quem quer que seja, sem questionamentos, surge um atentado ao prosseguimento da situação, que  mudará por completo a forma como você encarou os fatos sobre aquele ser ao seu lado. Que mudará talvez até mesmo a sua fisionomia, para o resto do dia. Que mudará até mesmo a sua fé na natureza humana. Um ato de radicalismo, um ato de extrema gentileza.
Utilizando-se  de seus fantásticos polegares opositores, o ser ao seu lado abre o zíper de uma bolsa, estes dois últimos, provas concretas da modernidade e do comportamento social pós-moderno, e de dentro da bolsa ele tira nada mais, nada menos que: um tablete de aproximadamente quinze centímetros de pé-de-moleque. Embalado. Acabou de sair da lojinha de um real. Provavelmente, foi fabricado em alguma cidade do interior, talvez até mesmo tenha vindo de outro estado. A pessoa abre o pacote.  Perfeitamente normal, sim. Até o momento em que, num súbito ataque de simpatia aterradora, ela se vira para você e diz, num sorriso tranquilo: "aceita?"
Seu mundo é, neste momento, o submarino do capitão nemo, imergindo e emergindo sem controle num oceano de profundos sentimentos misturados, mas tudo acabou ali. Não houve cantada, não houve interesse, não houve sequer alguma outra intenção, naquela pequena palavra, além do puro oferecimento de um doce a uma pessoa desconhecida. Sim, é dificílimo acreditar, mas foi assim mesmo, um simples oferecimento, desprovido de qualquer malícia. Você tem vontade de chorar, você tem vontade de sorrir, pulando e se jogando num gramado inacreditavelmente verde e saudável, e correr de mãos dadas com aquele ser humano fabuloso ao seu lado, abraçá-lo fortemente, para que ele saiba o quanto é maravilhoso o que acabou de fazer pela restauração diária de fé na humanidade.
timidamente, você sorri de volta, dizendo baixinho: "ah, não. Mas muito obrigado/a". E sua vida segue, contabilizando incontáveis créditos de gentileza, internamente.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O dom e a eterna sacanagem divina

Aparentemente, este planeta super cafona e decaidinho que chamamos de lar está dividido em três grupos de pessoas, respectivamente apresentados em ordem crescente da quantidade de membros: o das pessoas com bom senso, o das que são frouxas e não opinaram e por último, o maior grupo: o das pessoas que acreditam em dons.
Diz-se do dom, no dicionário de língua portuguesa cujo nome não vem ao caso: "SM. 1 dádiva, presente. 2. Qualidade inata [...] 4. Poder. [PL.: dons]". Basicamente, portanto, a maior parte da população mundial acredita que Van Gogh teria, em algum dado momento de sua triste vida, recebido um presente que o tornou um carinha talentoso o bastante para criar belas pinturas, por exemplo.
Não que haja efetivamente um problema em acreditar nisso; é até uma crença bastante plausível, sob a nossa condição mortal, afinal, para deixar de ser plausível, as crenças devem teoricamente levar seu crente a ceifar o direito essencial à vida de outrem, mas provavelmente passa a ser um pouco constrangedor quando seus tios e/ou avós começam a acreditar que por ter andado ou balbuciado algumas palavras antes do tempo, você seja com certeza um ser agraciado com algum tipo de genialidade bizarra como as daqueles caras que comandam empresas de software bilionárias.
Pois é, a parcela da população crente em dons celestiais comete algumas gafes. Talvez você tenha se frustrado um pouquinho ao descobrir que pós-doutorado em física quântica das ciências iônicas da galáxia paradoxal não combinaria com quem você queria ser, justamente por causa da crença; às vezes, ela pressiona um pouco a gente. Mas não se sinta mal por isso, de forma alguma. Ser corretor de imóveis também é OK, e talvez você nem fosse feliz estando em outra situação, não é mesmo?
No entanto, em meio a tantas peculiaridades existentes na crença de dons, mais do que na da meritocracia e menos do que na da cura gay, há um certo efeito negativo, e ele se dá quando o indivíduo crente retira de seu vocabulário a prática e a experiência, para reduzir (ou aumentar?) tudo à decorrência de dom.
Vejamos, tudo bem acreditar que uma entidade superior tenha conferido a cada pequeno ser alguma habilidade específica. Todavia, será praticamente impossível não sentir ao menos uma pontinha de curiosidade a respeito de como e por que diabos esse camarada superior teria presenteado algumas pessoas com dons um tanto... Exóticos (a exemplo daquela sua amiga que decorava placas de carros de todos os professores do ensino fundamental, do seu colega que toca a língua no nariz ou até mesmo da sua prima que consegue fazer bolas de chiclete maiores que o próprio rosto).
Torna-se, por fim, uma paranóia agonizante, imaginar que o ser superior que te fez uma grande decoradora de placas de carros, um cara que toca o nariz com a língua, ou uma fazedora de bolas de chiclete, estava na verdade meio entediado e resolveu fazer umas sacanagens com seus seres inferiores.
De qualquer forma, o importante mesmo é não ceifar o direito essencial à vida de ninguém. Não tanto por grandes motivos, mas mais por ser plausível em suas crenças, numa boa.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A perda da graça

Ao que tudo indica, durante muitos séculos de pesquisa sobre o comportamento da espécie humana, concretizou-se a ideia de que nossa sina biológica, que os mais ousados chamariam ciclo de vida, resumiria-se apenas a quatro eventos citados e difundidos em escolas, igrejas e na interminável fila do açougue da vila: a gente nasce, cresce, reproduz-se e morre, deixando os filhos feitos na terceira fase  ( se bem que muitas vezes a segunda e a terceira fase possam vir a inverter-se, mas não vem ao caso) ao deus dará.
No entanto, teorias um tanto mais sofisticadas, por assim dizer, foram muito além para nos mostrar que estivemos perdidamente enganados acerca desta infame listinha de verbos inerentes ao ser humano; de certa forma, provou-se por a + b, como 2 e 2 são 4, que na verdade nosso ciclo de vida, como dizem os caras de pau, teria um outro ato a mais, nas imediações da segunda fase oficial - o crescer -, apesar de o tempo não ser certeza, ao qual chamamos carinhosamente "perder a graça".
Não se descobriu a princípio com muita exatidão, sob qual circunstância perdemos a graça; muitos diriam se tratar do aniversário que não tem mais importância, outros alegariam que para si, perderam a graça quando deixaram de sair de casa sem guarda-chuva, ou até mesmo houve quem dissesse que nada era mais sinônimo de perder a graça do que o matrimônio da legislação monogâmica, mas o certo é que esta aparentemente simples descoberta causou nos cientistas um grande reboliço, e inclusive, um leque de outros teoremas foi aberto com esta possibilidade, uma vez que a partir deste novo conhecimento, desta verdadeira inovação científica, como já é de se esperar sempre, após qualquer evento terreno, os cientistas e pesquisadores ganharam cada vez mais empregos, enquanto os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas os perderam à mesma proporção, porque estas são as regras do jogo.
Surgiram enfim, como pipocas estourando na panela, as milhares de vertentes do estudo sobre o quinto possível elemento no comportamento biológico do ser humano. Alguns destes, como por exemplo o estudo acerca do momento da vida em que perdemos a graça, questionavam, como não deve ser difícil deduzir, a data em que esta fatalidade nos acontece.
Foi quando os cientistas dividiram-se entre os que acreditavam tratar-se de um evento localizado entre o nascer e as primeiras palavras, estando portanto antes do crescer na sina da vida, e outros, que juravam de pés juntos que a perda da graça começaria a apresentar seus sinais visíveis após o sexto copo consecutivo de cerveja, podendo-se localizar tanto antes, quanto depois do crescer - ou do reproduzir, já que os descendentes puxam muito da graça humana.
Os votos também variavam entre os que relativizaram tanto a coisa ao ponto de acharem que a perda estaria após a morte. A justificativa dada a esta possibilidade foi a de que "memórias póstumas de Brás Cubas" seria uma obra muito entediante, porém esta teoria foi logo quebrada com o argumento sobre a especulação do estereótipo do cientista que odeia literatura.
De qualquer forma, o mais impressionante em toda essa história incrível continua sendo, sem dúvidas, o fato de que, em absoluto, todos os cientistas empenhados em descobrir mais sobre como, quando, onde e por que o ser humano perde a graça, já haviam perdido as suas graças de forma integral havia muito tempo, e seria de fato dificílimo fazer qualquer piada que fosse, sobre, para ou com eles. Daí então, mais uma vez os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas, como já é parte do ciclo de vida dessas subespécies quase-humanas, perderam seus poucos empregos (que pode ser o quarto ou terceiro ato na listinha infame de verbos inerentes a estes seres, mas não deixa de se fazer presente).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ideal Vencido

Sabe, Renato,
Antigamente, quando eu tinha a tua idade, eu até achava que as coisas ficariam mais bonitas quando olhadas mais de perto, quando eu as olhava de longe. Era sempre assim, eu começava de uma boa distância, observando bem, interpretando do meu jeito de criança, criando tantas expectativas pro futuro e idealizando aquelas imagens, aqueles pedaços da vida, que me davam uma vontade louca de ir chegando mais perto, porque a expectativa é mesmo essa droga que faz com que a gente volte a ser criança de tanta curiosidade. Ah, Renato, como eu era ansiosa, assim que nem você, mesmo, né? Quando tu era bebê, as moças da cozinha sempre vinham até mim ao final do dia dizendo algo como: "ah, mas esse moleque é impossível, não tem jeito, de tão curioso qualquer dia ainda arruma pra cabeça", e eu ria, meio orgulhosa. 
Mas você sabe, o meu orgulho acabou-se. A minha ansiedade não tem mais motivos pra existir, meu filho, pelo simples fato de que naquela época eu tinha a persistência das crianças, mas a gente vai crescendo, vai arrumando mesmo um monte de coisa pra cabeça, e aos poucos, percebe que essa persistência infantil é só algo que assim, personificando a própria infância, até cresce dentro da gente, mas cresce livre, de um jeito que pode mudar e virar uma coisa completamente diferente do que era no começo, pode virar do avesso, e virou. Hoje em dia, essa persistência, que até a pouco tempo ainda me fazia continuar me aproximando do mundo pra ver se ficava mais bonito de perto, virou uma terrível consciência de que só vai haver desilusão. Os ideais, Renatinho, ah, eles estão tão cansados... Mas também, pudera... Foram tão surrados, não é? Teve a ditadura, teve o câncer do teu pai, teve tanta coisa que eu aliás já tô tentando esquecer, que eu fico até com dó dos pobres coitados dos ideais.
Ah, onde eles estão? Devem estar todos amassados naquela cristaleira onde a gente guardava os bibelôs de árvore de natal, aonde todo fim de ano eu ia, abria a portinha, pegava os ideais de novo e colocava na cabeça para serem flagelados novamente no ano seguinte: regime, vida nova, sexo, economia, intensidade, ah, uma mistura imensa, acho até que uma coisa virava exatamente o oposto da outra, ficava tudo uma grande bagunça e lá pra maio os ideais voltavam todos escondidinhos pro cantinho deles na cristaleira. Maio é um mês ingrato, um mêzinho miserável, mesmo. Porque pior que qualquer extremo é o meio, e pior que o meio é o meio do meio. Maio é tão meio que parece meio até no nome, olha que desgraça. Em maio acontece sempre alguma besteira, incrível. E foi em maio que ele se foi, o teu pai, o único homem que eu amei na vida. Ele sim foi alguém de ideais inabaláveis, e é bem provável que essa era a coisa que eu mais amava nele, aquela obstinação, aquele desejo de viver por algo.
Olha, Renato, com o tempo os ideais vão virando memórias... E ainda assim a gente tem que se dar por satisfeito quando viram, porque tem gente que nem isso tem mais, acaba esquecendo é tudo. Mas eu lembro dos meus... Eu idealizava tanto, eu sempre chegava mais perto pra ver o bonito ficar mais bonito, e mesmo quando, na grande maioria esmagadora das vezes o bonito idealizado se transformava num horroroso, eu estava lá, feliz, porque tinha pelo menos tentado, e não podia ser tão feio assim, tudo tinha lado bom. Mas agora, meu amor, agora tudo é passado. Dizer que não existe lado bom na vida é mentira, seria muita ingratidão da minha parte, sendo que eu tenho você, as suas irmãs, sendo que eu tenho tanto na minha história, mas chega uma hora em que tudo o que é a parte boa da vida fica pra trás, e a gente tem que aceitar a parte oposta à vida. Eu estou aceitando a minha morte, muito contente e satisfeita por ter tido uma vida assim tão cheia de ideais, e sabe por quê? Porque eu tive ideais, e porque eu lutei por eles, sim, por mais que eles não correspondessem à verdade inevitável que vinha depois e pousava sobre nossas costas. Eu vou embora feliz, porque de longe assim, a vida até parece uma coisa linda, e agora eu já tenho aqueles ideais todos desistentes, num sofá de espera do purgatório, e eu prefiro mesmo é não criar mais expectativas sobre aquilo que já é bonito. A certeza e a seriedade da morte já me conquistaram.
Adeus, meu filho.

sábado, 12 de outubro de 2013

"O Tempo" Seria Um Título Deveras Criativo E Original Para Isto. Hmm...

Foi há muito tempo atrás... Quer dizer, isso é tudo um pouco confuso, porque para algumas pessoas o tempo é relativo, para outras ele é um daqueles amigos irritantes que destroem relacionamentos, para terceiras pode ser uma doença ou uma cura e tem até mesmo quem acredite e jure de pés juntos que tempo, ilusão humana, é dinheiro, outra ilusão do animal racional-mas-nem-tanto. 
Resumindo, o tempo é um camarada completamente maluco, e por isso fica difícil saber exatamente há quanto dele aconteceu esta história. Na verdade, na verdade, mesmo, veja bem, o tempo pode até nem ter passado por lá ainda, quem pode saber? Afinal, não se fazem mais tempos com a pontualidade de antigamente (culpa do crescimento e modernização das fábricas de balas mastigáveis de iogurte pertencentes ao setor de indústrias de bens de consumo indiscutivelmente não duráveis por mais de cinco minutos), de modo que tudo pode ser uma grandessíssima mentira e você nem sabe. Ao mesmo tempo que tudo pode ser uma grandessíssima verdade, é claro, mas agora que você acaba de tomar conhecimento da possibilidade de tudo ser uma grandessíssima mentira, muito provavelmente ficará encucado e pensativos, imaginando se é tudo mentira, ou se é tudo verdade, ou até mesmo se tudo é parcialmente verdade e parcialmente mentira - o que é mais provável -, mas saiba que isso não importa, amigão. Console-se em saber que sim, pai é aquele que cria. Relaxe.
Relaxe, porque mesmo depois de pensar e espremer suas fracas ideias para encontrar uma boa história para esta introdução, que caiu do céu como a maçã na cabeça de Isaac Newton (e muitos dizem que esta história é sim uma grandessíssima mentira), a autora desculpa-se infinitamente pela perda de tempo, mas não foi capaz de encontrá-la. No entanto, como seria deveras triste perder entre os papéis velhos uma introdução simplesmente por não ter uma boa história para ela, a autora resolveu que, mesmo sem história, esta introdução merecia ser publicada, porque apesar de a descoberta da lei da gravidade não ter dependido em partes dela, foi uma introdução de fato simpática, e de leis o mundo já está cheio mesmo, poxa. 
Portanto, estamos aqui discutindo a veracidade da história sobre a maçã que supostamente caiu na cabeça de Isaac Newton, fazendo com que ele, após xingar todas as sortes de maçãs existentes no mundo, porque deve ter doído pra cacete, parasse para pensar sobre o que faz as maçãs caírem das árvores em cabeças de grandes físicos. E o resultado, não menos satisfatório, seria obviamente a descoberta da famigerada lei da gravidade, temida pelas senhoras mais vaidosas da alta sociedade. Mas como tudo pode ser uma grandessíssima mentira, há quem diga que isso tudo é conversa pra boi dormir; Curiosamente, essa história, sendo verídica ou não, aconteceu há muito tempo atrás... Quer dizer, isso é um pouco confuso, porque em 2013, ano de publicação deste texto estúpido, temos que aconteceu a cerca de trezentos e poucos anos, mas em 3016, caso o arquivo resista ao tempo, terá acontecido há muito mais tempo, agora, se você tiver uma máquina do tempo e voltar ao ano de 1687, que foi o da publicação da lei da gravidade, com este arquivo, e efetuar a leitura do mesmo neste ano, não fará tanto tempo assim (mas aconselhamos que caso você volte ao ano de 1687 com este arquivo em mãos para efetuar a leitura do mesmo, não o faça em público, do contrário, ninguém sabe o que pode acontecer com você). Lembrando também da possibilidade de o leitor poder ter nascido há dez, quinze mil anos atrás, podemos concluir que para certas pessoas, trezentos e poucos anos nem é tanto tempo assim. De qualquer maneira, essa é uma história que pode de fato nem ter acontecido, não necessariamente porque o tempo ainda não passou por lá, mas sim porque desde que o mundo é mundo, e isso aconteceu bem antes de 1687, existem pessoas nele com o péssimo hábito de sair por aí contando aos outros coisas que nunca aconteceram fora de suas cabeças.
- E aí, cara, tranquilo?
- Beleza, Newtão, e você?
- Ah, tranquilo, tranquilo. Cara, cê não vai acreditar. Eu tava lá, tirando uma soneca debaixo daquela macieira ali, quando de repente, caiu uma maçã bem em cima da minha cabeça, e aí eu comecei a pensar aqui... Cara, o que faz as maçãs caírem? A gravidade, cara, a gravidade!
- Hã?
(Fragmento de conversa entre Isaac Newton e um amigo seu, 1686).
Por fim, é por isso e por mais um pouco que nada é verídico. Nem o tempo, nem o vento, nem os historiadores, nem os físicos, nem as balelas que eles contam, nem os xavecos que eles passam, nada. Logo, vamos todos de mãozinhas dadas, aceitar que tudo não passa de... Sei lá do que não passa, aquele abraço.

sábado, 21 de setembro de 2013

Acontece...

Foi um relacionamento que acabou-se, como este que se passa pela cabeça de quem já teve um relacionamento acabado neste exato momento, como o amor de Romeu e Julieta, em quem pôs fim a morte da carne, como o casamento entre a justiça e a sociedade, como tantos outros que o mundo, cansado de assistir, assistiu. Teve seu início, meio e fim, sendo este último gerado por um pedido de casamento negado devido à falta de estruturas psicológicas. Não importa, ela não queria, era cedo demais, não havia de dar certo. Seria melhor acabar.
Quando acabou, porém, da maneira curiosa que acontece com quem não queria, ela arrependeu-se. Arrependeu-se amargamente, porque, veja bem, ele era um rapaz tão bonzinho, não é mesmo? No entanto, já era tarde. Por orgulho ou sensatez, manteve-se firme na decisão e não voltou atrás, até que veio por fim o convite do casamento que ela não quis com ele protagonizar.
Aí então foi que bateu forte o arrependimento de antes, sucedido de mais forte ainda orgulho ou talvez sensatez fingida. Deu-se o casamento por realizar-se às dezenove horas do dia tal, no tal lugar, que foi aquele para o qual ela seguiu, e nas escadas do qual ela chorou sentada durante toda a cerimônia, como criança sem brinquedo, já que não pode aguentar ver aquilo de frente. Chorou até não ter mais olhos para ver o que acontecia à sua volta. E é engraçado, porque o que acontecia à sua volta era exatamente o tipo de coisa que ela encararia como material para uma boa história de cinema, apesar de nunca ter sido retratada por ninguém.
Aconteceu que um rapaz, passando por aquela mesma calçada agora salpicada de lágrimas de arrependimento sem orgulho e qualquer traço de sensatez, viu o rosto – e as lágrimas, pois era impossível ver um e não o outro – e dele gostou, e portanto foi verificar o que o afligia.
Por fragilidade causada pelas circunstâncias, esqueceu de vez o orgulho e a sensatez que a indignidade e o arrependimento daquele momento haviam largado na calçada, e contou a ele o ocorrido. A princípio, ele duvidou da veracidade dos fatos, sorrindo. Mais tarde, a convidou para tomar uma cerveja, o que com certeza mudou toda a situação da água para o vinho.

Duas horas depois, o choro foi alcoolizado e obrigado a partir, dando espaço para as risadas escandalosas que as substâncias alcoólicas tiram de dentro das pessoas. E lá estavam dois bêbados, dançando ritmos nordestinos em um boteco qualquer, porque o amor tem dessas bobagens, e porque o destino é ainda mais bobo. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Especial Dia Dos Namorados - Conte Aqui Seus Problemas Amorosos

Data comemorativa presente em calendários de todas as partes do mundo, o dia dos namorados ganhou popularidade no Brasil por volta dos anos 40, em São Paulo, por consequência de uma campanha publicitária criada por João Dória para fazer crescerem as vendas no mês de junho, já que este não possuía um feriado comercial. A data no Brasil é atribuída ao dia 12, véspera do dia de Santo Antônio, conhecido por ser um santo casamenteiro. Fora daqui, o dito dia dos namorados é comemorado em 14 de fevereiro, por ser dia de São Valentim. Dadas todas estas informações de utilidade pública discutível e procedência duvidosa, é perfeitamente compreensível você pensar: "Tá. E daí?" Calma, que eu já chego lá. 
Estava eu pensando sobre o tal dia dos namorados, o qual orgulhosamente não comemoro (mas não por isso deprecio), e ao mesmo tempo, lembrando que deveria ontem coletar problemas alheios para o meu "semanal", quando surgiu a ideia no mínimo curiosa de fundir as duas coisas. Portanto, vamos logo de uma vez ao que de fato interessa: começando no metrô Brigadeiro, ainda nas escadas, ouvi uma voz comentando o conteúdo de minha plaquinha especialmente feita para o dia de ontem: "conte aqui seus problemas amorosos", e rindo em seguida. Corri atrás de uma moça um pouco confusa que disse ser um problema quando a pessoa com quem você resolve morar junto não colabora com a situação financeira. Deve ser. Já na rua, houveram situações até mais pesadas: "meu ex-marido é dependente químico, por isso eu resolvi terminar", ou alguma dificuldade com a própria sexualidade, como a não-aceitação dos pais. Daí me veio aos ouvidos a seguinte frase: "amo duas pessoas ao mesmo tempo, uma de um jeito e a outra de outro bem diferente, mas queria poder fundir as duas pessoas em uma só", e isso realmente me deixou pensativa. Não aquela coisa toda de perfeição, de pessoa certa e tudo o mais, mas sim a ideia de que, no dia dos namorados, como campanha publicitárias, as siderúrgicas poderiam lançar uma campanha de soldagem de pessoas, quem sabe resolvesse esse tipo de problema de "imperfeição"? Mas aí, pensei que talvez não tenha sido uma boa ideia, e portanto é melhor que eu continue bem longe das agências de publicidade. Ainda foi dito pela mesma pessoa; "é mais difícil ainda quando uma das pessoas é sua chefe, mais velha e cheia de responsabilidades e tal." Uma situação de indecisão, exatamente igual a de outra mulher alguns metros a frente dali: "gosto dos dois, mas descobri que ainda prefiro o ex." Uma boa época para voltar atrás, boa sorte, moça. 
Agora, se ele ou ela já estiver compromissado (a), cuidado: "tenho ciúmes da ex-namorada dele, porque estamos juntos há um ano e meio e ela continua ligando e dando em cima dele. Ela é simplesmente louca." Veja bem, você que está aí nessa situação difícil, ex-namorada louca: temos uma vasta lista de carentes e disponíveis logo neste doze de junho: "não tenho namorada", "meu amigo pega todas e não sobra nenhuma para mim", "há um ano que eu não faço sexo, não tomo uma garrafa de pinga e nem como um pão de queijo" (o que deve ser de fato uma tristeza específica), "ela já é passado, bola pra frente", e por fim, "faz tempo que não arrumo mulher", disse o Thales. E atenção, por favor, porque esta foi a sessão de 'homens a procura', mas a de mulheres também está aí bem firme e forte, para quem quiser ver:  "tô sem namorado", "fui traída e estou solteira", "tô solteira", "preciso encontrar um namorado", "ninguém me quer" (isso foi no mínimo triste), "acabei de pedir um menino em namoro e ele não aceitou" (aproveitem que ela deve estar vulnerável, vão, vão, grande chance), "tô divorciando, ele é uma pessoa maravilhosa mas não quero mais saber dele", e assim encerramos a sessão de  agência de relacionamentos. Vamos agora aos depoimentos mais detalhados do dia, a começar pelo meu amigo com quem já converso pela segunda vez: "as provas do Mackenzie são difíceis e não deixam a gente se ver. Ela estuda Direito." Depois, um problema não tão amoroso assim, mas com o qual me identifiquei um pouco, vindo de uma desenhista que como agora mesmo vi pela internet, possui uma página destinada a trabalhos artísticos bem conhecida no facebook (por sinal, ela fez a grande gentileza de soltar uma divulgação bacana deste adorável blog por lá, e a página em questão chama-se "ARTatte"): "meu problema é que eu sou desenhista e tenho de vestir uma camiseta de anúncio na rua." Um problema grande mesmo é que  por essas bandas, para ser pensador, é preciso ganhar dinheiro antes. Enfim, agora, as peripécias de uma moça que não sabe ao certo o que fazer: "conheci um cara no trabalho e começamos a conversar. Depois de um tempo percebi que toda vez que ele vinha me ver, tirava uma aliança do dedo, e resolvi procurar pelo nome no facebook. Vi que ele tinha namorada, mas ele negou e eu ignorei. até que depois de algum tempo acabei ficando com ele, mas o namoro continua, e agora eu realmente não sei o que fazer  a respeito. Faz algum tempo que a gente não se fala, e ele ainda namora."
E agora, para finalizar este dia tão... Amoroso, uma linda, comovente e triste história, de amor, paixão... E raiva, de João:
"Eu a conheci num bar, tinha 22 anos. Disse pra ela que a gente ia casar, que ela era a mulher da minha vida, mas ela disse que era casada. Falei que então ela largaria o marido, mas a gente se casaria. Daí então, ela foi ao banheiro e eu fiquei esperando até que ela saísse de lá. Quando isso aconteceu, eu a peguei no colo lhe dei um beijo. Sabe quando cê sente de verdade que é amor? Aí, depois de um tempo, a gente começou a ficar, e namoramos por dois anos, mas ela não largou do marido. Eu disse milhares de vezes pra ela se separar dele e ficar comigo, mas ela dizia que ele tinha emprego, estabilidade e eu era um menino. Por isso, virei fotógrafo e fui à Nova Iorque com mil dólares no bolso para ganhar dinheiro. Quando voltei, disse novamente à ela que deveria escolher entre ele ou eu, mas ela nunca me ouvia, e ficava sempre correndo atrás de mim. Eu dizia 'meu, não vem atrás de mim', mas ela vinha. Eu falava que não queria mais vê-la enquanto ela não resolvesse o que queria fazer com sua vida, e quando eu chegava ao aeroporto, quem estava me esperando? A diaba. Até que eu não aguentei mais e mandei ela ir se foder."
Beleza, uma boa noite aí, para todos vocês! Fui.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Conte Aqui Seus Problemas [5]

Olá. Antes de começar nossa sessão de lamentações semanal, gostaria de oferecer a quem contribui com esse pequeno trabalho de inutilidade pública um agradecimento especial, por motivos mais do que óbvios: sem vocês, não haveria o trabalho em questão. O outro agradecimento de hoje fica por conta de um chocolate que recebi de uma contribuinte muito simpática cujo problema principal deve-se a sobra de mês ao final do salário, que serve para pagar as contas da adolescência, ajudar em casa e que este mês, infelizmente, não servirá muito bem para o presente de dia dos namorados. Acontece, mas boa sorte, amiga. Aliás, falando em amiga, a amiga dela está com o mesmo problema, coitadas. Dias melhores virão. 
Trabalho é mesmo um negócio complicado, e vejamos aqui, uma grande parte das reclamações do povo é justamente culpa dele. Seja pela falta, seja pelo excesso. Arrumar trabalho, por exemplo, é um problema para um homem bem apressado que nem ao menos quis parar para dizer isso. Já quando se tem um trabalho, surgem vários tipos de chateações: "não consigo administrar meu tempo porque trabalho demais e quando chego em casa não tenho mais vontade de fazer nada por mim", "não consigo encontrar ninguém para ficar com meus dois filhos pequenos", "preciso ganhar mais dinheiro", "insatisfação salarial", "rotina, estresse". E quando o assunto é chefe? "Tenho dois chefes, eles são sócios, mas não se dão bem, e eu fico entre os dois, ou seja: estou no meio das brigas. Uma vez, tentei dizer ao chefe A que o chefe B estava insatisfeito e desmotivado, e ele me respondeu que isso não existia."
Tive a impressão há algum tempo que carros podem trazer muita preocupação e muito prejuízo. Hoje, chegou a confirmação; "meu carro foi apreendido na estrada e não tenho condições de pegá-lo de volta. Por enquanto, vou ter de andar de ônibus." "Eu preciso trocar meu carro, mas meu irmão não pode me ajudar a procurar um novo, e sabe, eu não sei comprar carro!" Aproveito para pedir um pouco de atenção a esta última frase, pede-se ajuda para comprar carro, boas almas, favor comentarem abaixo oferecendo dicas, conselhos etc. 
Agora, ainda no setor de anúncios, vamos a uma figura particularmente engraçada. Desejando ser identificado apenas por Robert, o adúltero, este homem reclama da rotina de seu relacionamento e diz estar não só apto, como também necessitado de uma amante, um relacionamento secreto; "quero ir pra balada, é assim que as coisas funcionam hoje em dia". E como se não bastasse a ousadia de suas palavras, Robert e seus amigos quiseram saber dos meus problemas. Como eu já disse outro dia, não foram os primeiros, e como também já disse outro dia, não me lembro muito bem dos meus problemas (com certeza, envolvem o tempo, o espaço, as pessoas e essas coisas estranhas). Robert então me perguntou se o anel que uso na mão direita é de compromisso, e eu disse que sim. Não é, mas achei que ele não se importaria de não saber disso. Seu amigo também reclamou da falta de tempo, porque não consegue ficar com seu filho, e aí então eu agradeci e fui procurar mais problemas. É importante lembrar que fazendo esse tipo de coisa, eu realmente dou muita risada. 
Samir sente-se insatisfeito com as pessoas ao redor, que não compreendem seu problema de saúde. Isso o deixa um pouco deprimido, e às vezes, torna-se um homem calado. A coisa de dar muita risada não se aplica a este caso, por exemplo. 
Agora, uma pausa para a máxima filosófica do dia: "Avon disfarça, mas já não sou uma mocinha como você, e não posso simplesmente dizer 'tchau, vou arrumar outro emprego'."
E prosseguimos, com o pobre vestibulando que está muito preocupado com a concorrência em Oceanografia, cuja nota de corte é 48, segundo ele, um tanto alto para seus esforços - e cá pra nós, alto para mim também -, já que ele não deixa de sair com amigos e divertir-se para ficar em casa estudando. E se entrar na faculdade é um problema, imagine depois de entrar: "trabalhos da faculdade são meu atual problema." 
E para encerrar a conta, vamos ao pai de família cuja ex-mulher pediu uma pensão absurda que excede as necessidades da criança de cinco anos. Segundo ele, a justiça hoje em dia nunca dá razão ao pai de família, e eu prefiro abster-me de qualquer comentário ou posicionamento.
Até a próxima!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Conte Aqui Seus Problemas [4]

Foi um feriado frio. O céu era cinza e o clima, propício aos cobertores, moletons, chocolates e filmes cheios de preguiça de sair de casa. As ruas, na imaginação de uma grande parte dos paulistanos, deveriam estar completamente desertas. Mas, sabemos, não foi assim que aconteceu, afinal, se tem algo que o tal do paulistano gosta, e muito, é de rua. E ontem, a rua estava cheia. Se de pessoas vazias ou não, não posso dizer, mas que tinham problemas eu sei. E de vários tipos, como sempre. Dos mais comuns, "a falta de dinheiro no bagulho, tá ligado?" com certeza reina. Posso ouvir as pessoas todos os dias, e tenho quase certeza de que nunca deixarei de anotar esse problema. Nunca. Mas, o financeiro a parte, vamos tratar dos corações paulistas: "fui chifrada e tô solteira. Perdi dois anos da minha vida com aquele desgraçado." Ao lado dela, o amigo reclama por estar sem celular, e também pelo fim de um relacionamento. E aí, uma terceira diz que o fim de um relacionamento não é tão ruim assim, o que gera polêmica: "mas é claro que pra você não é ruim, foi você quem terminou o seu." Antes de ir embora, a primeira deles ainda deixou comigo uma reflexão revolucionária, praticamente se propôs a mudar o significado de uma palavra: "descobri que puta é quem dá de graça." Ainda não entendi ao certo a complexidade e a filosofia contidas nessa frase simples e curta, se alguém souber expressar com maior clareza as mudanças no sentido pejorativo do termo 'puta', favor entrar em contato. Depois dessa verdadeira pérola, o amigo a puxou pelo braço, agradeceram e saíram discutindo a respeito. É engraçado, aliás, quando agradecem. Teve alguém que simplesmente chegou perto, me estendeu a mão direita para uma saudação e disse: "parabéns por isso!" Obrigada, obrigada.  O Felipe me agradeceu, também. O maior problema dele, atualmente, é estar desempregado. Boa sorte, Felipe. 
Pela segunda vez, me perguntaram sobre os meus problemas. Não me lembro da resposta, anotei o problema de quem perguntou: o Guilherme. "Vivemos em uma colônia muito fechada, onde todo mundo sempre sabe o que todo mundo faz." Conversei com ele e seus amigos por um bom tempo, por sinal. Um deles se parecia muito com algum ator brasileiro que não sei o nome, e pareceu ter de fato uma porção de problemas: "sou instável e mudo de humor muito rápido. Moro longe da escola, sou muito mulherengo, muito natureba e tenho uma perna maior que a outra. Também não sei controlar meu dinheiro." No mesmo grupo um casal afirmou ter um problema em conjunto, sendo ela o problema dele e vice-versa. Ele acrescentou ao fato dela ser seu problema, o fato dela "não deixar seu cabelo ficar legal". Não devo opinar a respeito, não devo opinar a respeito. E ainda nesse belo "grupo de doidos", como disse alguém dele, uma das garotas é "muito baixinha", e a outra não quer namorar com o cara com quem sai atualmente. 
Um pouco depois eu encontrei alguém que tem vontade de se suicidar, mas não sabe por quê. E me ofereceu um cigarro. Um suicida muito simpático. E talvez sob efeito de algumas substâncias ilícitas, mas só talvez. Encontrei também alguém que não faz sexo há um ano, esqueceu como é ter amigos e por mais que odeie gente chata, é tudo o que encontra por aí. Uma vida complicada, e talvez igualmente sob efeito de algumas substâncias ilícitas, mas, novamente, só talvez. 
O último depoimento, feito entre risos e pausas dramáticas, começa de um modo simples, porém perigoso:
"Eu era amiga de uma menina. Um dia, o ex-namorado dela pediu para ficar comigo e eu disse que não." Em consideração a ela, é claro. "Mesmo assim, ela achou que eu tinha ficado com ele e parou de falar comigo, do nada." Depois, fiquei com ele só por raiva." Sim, somente por raiva mesmo e nada mais. "Aí, ela veio e me mandou uma mensagem me xingando por isso". Olha que sem noção?! 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Conte Aqui Seus Problemas [3]

O dia amanheceu frio, chuvoso, de cara amarrada e não querendo papo com ninguém. Lá pelas duas da tarde, no entanto, começava a aparecer um solzinho bonito, um pouco tímido, é verdade, mas o suficiente para iluminar a cidade de São Paulo. E lá, na Avenida Paulista, novamente estava eu. Ou melhor, estávamos: eu e minha bela placa. Vamos portanto, ao que importa; na sessão de problemas amorosos, o dia já começou ótimo: "minha mulher é problemática, ela faz um inferno". E pela Ênfase, deve ser mesmo, sabe. Além disso, algo particularmente engraçado aconteceu ali na frente da estação Trianon: um funcionário do banco apareceu pela janela de vidro e me chamou até a porta, onde disse estar um pouco preocupado com o início de um namoro com alguém que estuda na mesma faculdade. Mais tarde, ao lado de um menino com cara de coitado, lá estava ela, a megera indomada: "sou muito grossa com meu namorado". Imagine só isso, que nada. Depois, ela mesma disse que não se achava boa o bastante para ele. Amiga, não se sinta mal por isso. 
E ali mais a frente, encontrei um camarada em apuros, que apontou para sua pretendente e disse: "esta garota não gosta de mim". Puxa vida, eu disse. Dê uma chance ao rapaz, moça. Ainda na mesma sessão, encontramos lá na Rua Augusta um jovem rapaz em situação desagradável: "minha ex-namorada terminou um noivado há pouco tempo porque ainda gosta de mim. Só que agora eu estou namorando". Essa é aquela coisa dos amores platônicos e idealizados, quando é possível não tem graça. Também existe aquele velho problema chamado "ex-namorada".
Mas nem tudo acaba em amor. "Sou muito pervertida e só penso em sexo o tempo inteiro", "tem muito pão com ovo se achando big mac" e "minha mãe me chama de vagabundo" foram as frases sem dúvida mais... Tocantes de hoje. E por falar em Big Mac, na hora do lanchinho visitei um Mc Donald's por pura falta de vontade de procurar algo melhor para comer (porque particularmente, meu problema é com a montagem dos lanches do Mc Donald's, que é péssima e muito provavelmente possui algo contra mim, já que meus lanches estão sempre mal feitos), e adivinhe só você que um atendente de lá não se aguentou e desabafou: "não aguento mais esse lugar, é um inferno. Adoro todos os meus colegas, mas não tenho nem vida social". E aí então, entramos, por fim, na sessão mais esperada: dinheiro, trabalho e, consequentemente: problema!
"Trabalho de segunda a segunda, estou cansado e estressado", foi o que disse alguém ali perto do MASP. Mas é claro que para se ter um problema com o trabalho, não é preciso trabalhar de segunda a segunda. Tem gente por exemplo que assumiu  ser o próprio trabalho o maior problema. A falta de dinheiro reinou: "dívida de R$50.000,00, dívidas de R$5.000,00, falta de dinheiro novamente, "a empresa não paga meus direitos", "fui demitida pois minha chefe não gostava de mim", "estou sem dinheiro, vou ser pai, pagar pensão e vai ser menina", "tenho um filho para criar e fui despejado" e mais uma vez, volta à pauta o tal do Mc Donald's: " a administração do Mc Donald's é péssima, a cada dia surge uma regra nova só pra complicar nossas vidas, isso atrapalha muito a gente". Poxa, Mc Donald's...
"Tenho vergonha de conversar em público" foi o que disse um daqueles homens que abordam pessoas na rua para tratar de causas sociais. Paradoxos, paradoxos... 
E então, a Bruna queria dizer que há 2 anos largou seu emprego fixo, onde ganhava bem, para trabalhar na rua, sem saber se ganharia algum dinheiro (por que ela fez isso é algo que você não precisa se dar ao trabalho de me perguntar, pois eu não faço a mínima ideia). Hoje, ela sente dores nos pés e  está sem dinheiro. Exatamente igual a mim, exceto por um único detalhe: ela assumiu ser promíscua e trair muito o namorado, enquanto eu estou aqui, muito bem... Com a minha placa. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Conte Aqui Seus Problemas [2]

Hoje é quinta-feira, dia 16 de maio de 2013, e os problemas coletados na Avenida Paulista são, em grande maioria, bizarros. Vamos começar dizendo que houve hoje uma "demissão em massa" em uma empresa cujo nome  evidentemente não citarei, de acordo com as atualmente ex-funcionárias da mesma. Um grupo de mulheres enfurecidas esbravejava pela falta de idoneidade da empresa, ao comunicar os cortes apenas hoje, aproximadamente às duas da tarde. "Eles me fazem vir trabalhar às sete e quarenta, pra me demitir só agora". Foi, com certeza, um problema coletivo. E cômico, porém trágico. Mais gente não está trabalhando atualmente. Helena, por exemplo, que disse que seus problemas acabaram quando ela me viu (não entendi ao certo o significado disso, acho que ela estava de sacanagem com a minha cara, mas tudo bem), tirou uma foto e depois contou seus males: "sou advogada, trabalhava em um escritório por aqui, mas minha chefe era um demônio e eu resolvi sair para estudar para um concurso público. Saí, mas agora estou sentindo falta do escritório". E se tem, algo que eu pude concluir até então, é que advogados sofrem; um camarada que depois de contar seus - muitos - problemas, decidiu não se identificar, foi muito incisivo em suas colocações: "tô puto por causa do fórum, não quiseram anular o processo. São Paulo é muito poluída e eu não consigo ver as estrelas no céu, a noite. O sistema jurídico do Brasil é uma bosta. A bomba do radiador do meu carro quebrou hoje, acordei gastando dinheiro. E a garota com quem eu saio é muito nova". "Quantos anos ela tem?" "Dezoito". Dezoito. Hum, será mesmo? 
Depois disso, vários problemas emocionais:
"Sinto falta de dinheiro. E de uma namoradinha", "não consigo arrumar um  namorado", "meu problema é falta de mulher", "tô completamente sem rumo na vida", "tenho medo de arriscar", entre outros. E então, alguns problemas bem simples, como por exemplo, espinhas. Compartilho do mesmo, por sinal, meu amigo. Depois desses, alguns mais sérios, como "tenho um filho internado por causa das drogas e outro está preso". Confesso que foi um pouco difícil ouvir isso. Também houveram as antíteses, como uma mãe dizendo "descobri hoje que meu filho fuma maconha", e um rapaz bem jovem que revelou que seu problema era exatamente o fato de a maconha não ser legalizada. 
Algumas pessoas foram furtadas, falta de dinheiro em excesso, um paradoxo pra deixar este parágrafo engraçado.
E agora, a parte mais engraçada: os problemas sexuais da moçada: "não consigo uma oportunidade de fazer sexo e isso faz com que meu relacionamento de um ano fique extremamente chato", "minha namorada não quer fazer sexo anal comigo" - um detalhe importante é que a namorada em questão estava do lado do rapaz que contou isso, e eles estavam tranquilamente discutindo a respeito, ela inclusive me perguntou se deveria e eu perguntei se quando criança ela era fã da Sandy -, "não transei, mas estou atrasada há um mês", ou seja, temos aí uma nova Nossa Senhora. 
Demorou para encontrar, mas é claro que teve reclamação do juiz ladrão. Nem sempre o apito amigo entende de quem ele é amigo, uma pena. Lamento por isso, amigos corinthianos. Mas, como eu não sou, ao contrário do que todos falam a respeito dos são paulinos, uma má perdedora, devo reconhecer também um camarada são paulino que disse estar desapontado com o time. Tem motivos para isso, é claro. "Meu time está muito ruim, tenho que usar a camisa de outros clubes. Trânsito também é um problema, e por isso, eu sou um cara que se atrasa, sempre. Sempre atraso pelo menos meia hora para chegar a qualquer lugar, mas a minha namorada consegue ganhar de mim. Chego meia hora atrasado, mas ela consegue chegar duas". Complicado. 
E por último, mas não menos importante, estando eu em frente ao metrô consolação, eis que me surge um rosto muito familiar. Minha irmã, que disse ter um problema do qual discordo, pois acho que é justamente uma solução para todos os problemas da vida: "tenho uma irmã estranha que pergunta sobre os problemas das pessoas na rua". Fantástico, obrigada, São Paulo!

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Conte Aqui Seus Problemas

Hoje, quarta-feira, 15 de maio de 2013, fui às ruas para ouvir problemas alheios. Ouvir, apenas, sem absolutamente nenhum outro intuito, senão o de tomar nota do maior número de problemas transeuntes possível. 
Evidentemente, essa atividade tomou algum tempo para ser compreendida à Avenida Paulista, às duas da tarde, mas o que posso dizer, da experiência em si, é que foi, sem dúvidas, algo maravilhoso. Divertido, prazeroso mesmo. Conversei com todo o tipo de gente, ouvi todo o tipo de problema, desde o mais relativa e aparentemente simples ao mais relativa e aparentemente complicado de se resolver. A nenhum deles ousei tentar arranjar solução, afinal, ao contrário do que dezenas de pessoas me perguntaram, minha empreitada não possui nenhum tipo de valor científico, e meus interesses não são psicológicos. Eu realmente só queria conhecer um pouco dos meus conterrâneos, ver mais de perto suas mais variadas realidades, saber da vida deles. Fui fotografada algumas vezes - o que é um desastre, pois eu estava horrível mesmo, mas não importa -, conversei em inglês com uma argentina e um americano, que reclamaram da dificuldade de seu relacionamento, por morarem em países diferentes e até mesmo improvisei meu - péssimo - espanhol, tentando aos trancos e barrancos, entender um boliviano que disse algo parecido com: "La vida es un problema" (Eu realmente não sei falar espanhol, mundo). Gracias, meu chapa.
Era engraçado de verdade ver a reação das pessoas ao me verem segurando esta plaquinha no meio da calçada, o processo era mais ou menos esse: primeiro, o cidadão está andando tranquilamente pela rua, quando avista uma pessoa que carrega uma placa pendurada no pescoço, com os dizeres: "CONTE AQUI SEUS PROBLEMAS". Isso sem dúvidas chama atenção, mas ah, é a Avenida Paulista, essa é só mais uma daquelas pessoas que inventam moda por aqui. Lugar doido, meu Deus. Em segundo lugar, depois de ler o que a placa diz, algumas pessoas repetem em voz alta, e aí é que entram as reações mais engraçadas: a mais comum é aquela risada larga do brasileiro, seguida de um "Ah, se eu fosse te contar todos...!". Há também a turminha feliz, que "não tem problemas", e a outra parte que compartilha, na maior parte das vezes, rindo e achando o maior barato. Algumas contam os problemas do amigo do lado, a maioria diz que é falta de dinheiro, de sexo ou de amor, problemas com a equipe de trabalho e chefia, ou ainda "sair do escritório na zona leste, chegar ao fórum sem ter almoçado e dar de cara com o mesmo fechado". É de matar. 
Uma que eu achei fantástica, em particular, foi a do rapaz que disse viver um eterno "cachimblema". Para os leigos, segundo o Dicionário Moderno da Língua Popular: "Cachaça, Chifre e Problema". E quando dizemos "cachaça, não é pouca: o coitado bebe Balalaika, Natasha e Velho Barreiro todo dia. Ok, talvez essa parte seja brincadeira dele. Mas não pensem vocês, leitores, que só civis choraram suas pitangas: teve policial reclamando que não voltava pra casa há quinze dias, não tinha folga e férias, queridos, só a cada quatorze meses. Houve que reclamou de assalto, houve até mesmo gente que acabou de se assumir homossexual e só queria mesmo dividir isso com alguém. Achei super legal! Minha primeira vítima nas ruas foi a Lia, que disse que a ideia foi muito criativa e definiu seu problema como o vício de fumar. "Queria muito parar de fumar. fumo há quarenta anos, e às vezes as pessoas me olham como se eu fosse uma criminosa". Foi tanta história engraçada, que de fato, não caberia aqui detalhar todas. O rapaz que sofre bullying no call center, por ser heterossexual, um professor de artes em greve, que disse que a situação está difícil porque a diretora da escola boicota a mesma, um homem que se diz muito afobado e ansioso, e por isso seus colegas de trabalho não o compreendem. Apesar disso, ele quis deixar bem claro, não sofre de ejaculação precoce. Juro, ele disse isso. Sobre trabalho, uma moça que não quis ser identificada disse: "tenho medo de ser demitida desde o dia em que entrei na empresa". De fato, complicado. Também foi dito, sobre o mesmo assunto: "meu problema é meu gerente. Ele só pega no MEU pé". Perseguição, isso aí é crime. O Daniel, no meio de vários colegas de trabalho, foi sincero em suas colocações: "pego trem, tenho péssimos colegas de trabalho, estou cansado do cursinho e meu noivo mora longe demais."
Na ala dos problemas físicos, teve gente que descobriu hoje uma necessidade de voltar a fazer hemodiálise depois de 8 anos, e estava desapontada pelo governo obrigar alguém com uma desfunção tão delicada a trabalhar. Teve quem simplesmente encara uma dor de cabeça de mais de dois anos como rotina, e não se importa mais com ela. Também teve quem precisa fazer uma prótese, mas o hospital das clínicas está em reforma, já fica aí a informação, procurem um outro hospital. E por enquanto, ficam só esses problemas. 
De qualquer forma, esta foi uma experiência da qual não vou me esquecer, e com certeza, em breve, se tudo der certo, teremos mais. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Filhinho,

- Olha aqui pra mamãe, olha? Quem é o nenê? Quem?
- Filhinhô, fala ma-mãe. Ma-mãe. Coisa linda!
- Filhinhô, vem cá, vem. Assim, um pézinho primeiro.. isso! Parabéns!
- Filhinhô... tira a mãozinha daí, tira...
- Filhinhô... não põe isso na boca não, faz dodói!
- Filhinho, sai de traz do fogão, sai!
- Filhinho, acorda, hora da escolinha.
- Filhinho, acorda, hora da escola.
Filhinho...
- Filhinho, que notas são essas, hein?
- Filhinho, senta aqui que a gente precisa conversar...
- Filhinho, onde é que você vai? - minutos e explicações depois - nada disso, nem pensar, filhinho.
Filhinho, filhinho...
- Filhinho, tem certeza que você quer isso mesmo? 
- Filhinho, estou tão orgulhosa...
- Filhinho, hoje você vai dormir em casa, né?
- Filhinho, que é isso aí no seu bolso?
- Filhinho, quem é esse aí na foto? E aquela?
- Filhinho, quem é essa?
- Filhinho, ela não é meio... estranha?
- Filhinho, e a faculdade, como vai?
- Filhinho, terminou com ela? Ainda bem.
- Filhinho, outra? Assim, de repente? É boa moça?
- Filhinho, a de antes era tão mais legal...
- Filhinho, espera um pouco, vocês são tão jovens, tem certeza?
- Filhinho, você sabe que pode voltar quando quiser, né?
- Filhinho, ela cuida bem de você?
- Filhinho, como assim, "filhinho"?
- Filhinho, quando é que vocês vem?
- Filhinho, papai está muito mal...
- Filhinho, eu estou muito mal...
- Filhinho, adeus.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Mão

A mão veio se achegado, ainda distraída mesmo, sem saber para onde se rastejava. A outra estava ali, sem tristeza, nem felicidade; apenas estava.
A mão chegou perto, e ainda que algo a puxasse, só continuava pois ainda não tinha aonde ir. Não percebia, apenas vivia aquela busca por nada. Tocaram-se.
Mas foi sem querer, do nada, como podia aquilo? Um simples toque. Tudo aquilo.
O toque foi involuntário, mas mais involuntário foi o que o seguiu. Uma sequência, uma frequência, só de toques, entre aquelas duas mãos, agora um tanto úmidas de um suor repentinamente frio; muito ávidas daquelas toques instintivamente quentes.
Passou a primeira mão a envolver a segunda com seu gesto um tanto -muito- evasivo. Ela cedeu, ainda que fingindo não perceber. As respostas eram impulsos, os impulsos tomaram consciência. Uma consciência meio escondida, uma distração. Os olhos seguiram a mão. Encontraram-se. Um impacto, quase vacilaram, os olhos, subitamente começando a pensar em olhar para outro lado, mas a curiosidade era maior do que a própria hesitação involuntária. Mantiveram um mesmo olhar, curioso, impreciso, um tanto vacilante, mas sempre ali, no outro. Tentaram entender. Foi impossível.
Que era aquilo? Quem era aquela? Só pôde continuar ali, olhando para ela, com as mesmas mãos, agora ligeiramente trêmulas. As mãos estavam bem ali, como sempre estiveram, talvez esperando, talvez apenas estando, mas não importava, nada importava além daquilo, além das mãos. Envolveram-se mais e mais, sem desviar o olhar, e seguraram uma a outra, com força. Nada era dito, e nem de dizeres havia necessidade, naquele mar de obsolências abstratas que chamavam vida -isso antes daquele momento, mais tarde seu significado viria a mudar- a não ser, aquele momento. A não ser aquelas mãos.

domingo, 30 de setembro de 2012

Falhas

Cada dia se torna mais estranho observar que os atuais moldes da sociedade formam hoje um novo conceito de pseudo feminismo, cujas características nada seguem senão uma linha de raciocínio puramente oposta às raízes daquilo que se denomina feminismo, realmente. 
As gerações atuais preocupantemente entendem por feminismo uma explícita (explícita sim, a quem ainda detiver a capacidade de pensar claramente) depreciação da imagem feminina, tomando-a erroneamente por bela.
O exibicionismo gratuito do corpo feminino vem sendo aplicado à sociedade de maneira subliminar, tendo como desculpas a pobreza e a sub cultura característica dos morros e comunidades carentes brasileiras, assim como tantos outros comportamentos deploráveis que o pobre tem, usando sua condição social como pretexto para tal.
é de fato muito cômodo fazer uso dessas tais condições de modo a causar impacto na sociedade, e o pobre descobriu isso. Acontece que tais impactos não prejudicam apenas a sua vida, como também a sociedade de modo geral.
Enxergar como patrimônio cultural nacional algo imoral não é inconcebível, antes, observa-se já atualmente esta consideração; o inconcebível da situação é permitirmos que se façam usuais as facilidades fornecidas pelo próprio Estado a essa cultura de violência, comodismo e animalizado que contribui infinitamente para a desmoralização do cidadão de bem. 
Não existem preceitos quando se trata da "arte" aplicada, mas sem dúvidas existem, e não devem continuar sendo ignorados, preceitos concernentes à educação e à própria dignidade humana, que, não é necessário muito para se enxergar, está sendo ofuscada pela alienação da massa e torna-se obsoleta em nosso país. 
Existem preceitos quando se trata do futuro da nação. Existem preceitos quando se trata de real incentivo à cultura e projetos sociais de eficiência e qualidade. Existem preceitos quando se lembra que somos seres racionais, adaptáveis e sofredores de diversas evoluções, e que temos em nossas veias, necessidade viva em correr atrás de nossas próprias evoluções. 
E ignorar estes preceitos é o que mais torna falhos os nossos programas de governo, nossa educação e nosso planejamento familiar, causando os problemas sociais que estamos habituados, acostumados e acomodados a ver sem procurar solução, fazendo piadas a respeito, como se não interferisse diretamente em nossas vidas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Retrato Melhorado

- Que há de errado com você? - Suspirou desiludido, afundando-se na poltrona e naqueles pensamentos da essência.
- Assim, de errado, nada. Por que a pergunta?
- Estou cansado. Provavelmente não sei mais do que estou falando.
 Sempre sabia do que falava, ela pensou. Sentada de frente para a penteadeira, tirava agora os brincos, enquanto ele a fitava com algo que apenas não demonstrava sentir.
- Você parece cansada também.
 Um dos brincos caiu quando ela foi colocar sobre a penteadeira. Abaixou-se para pegar e ele permaneceu sentado, uma mão jogado ao ar, a outra pressionando o copo contra o peito, ainda forte em virilidade e sadio. Bebeu pelo canto da boca um gole do uísque que fora mais aprazível, um dia.
- Ando apenas um pouco enfadada, Roberto. Nada demais.
- As crianças do coral?
- Também.
- Lhe aborrecem muito?
- Nada demais, já disse. E você?
- Eu o quê?
- Você está assim por quê?
- Trabalho, não importa - Deu de ombros - Perguntei primeiro.
 Abriu de leve aquele sorriso cínico entortando os lábios, costumeiro quando se davam seus gracejos.
 Ela ria, olhando para ele pelo espelho da penteadeira, enquanto se ajeitava calmamente. Ele ainda tinha seu charme, aquelas mangas da camisa bem dobradas e as feições inteligentes e sarcásticas, embora ligeiramente envelhecidas, ainda transmissoras de peculiar altivez.
- Você é engraçado. Ainda.
- Não diga - Coçou o queixo, não muito surpreso.
- Começa essas observações aleatórias e nunca se sabe onde vai parar.
 Deixou de lado os brincos, a escova de cabelo e o próprio espelho, virando-se na cadeira para botar firmes e atentos os grandes olhos azuis sobre ele, como fazia ao tentar adivinhar o que ele pensava. Ele se mantinha estático em sua condição irônica beirando uma excentricidade meio misteriosa, meio "meia-idade", e no riso retorcido franzia a testa, de graça, desconcentrando-a de uma vez, ao arrancar dela uns bons sorrisos. Dentro dele, porém, aqueles olhos é que eram os do desconcerto.
Sentiu-se vivo ali algo que por vezes parecia meio agonizante, meio moribundo. Sentiu-se quente e vivo.
- Eu te amo. Ainda.
- Você e isso de "ainda". Coisa daquele seu amigo que parece amiga.
- Por que tanta perseguição com ele, ciúme?
- Ora, vamos, nada disso.
- O que, então?
- Não é ciúme, minha cara. Ledo engano. Acho apenas companhia desnecessária a da pessoa dele.
Ele agora se mexia um pouco na poltrona, talvez um pouco desconfortável, até arrumar-se por fim com a perna direita sobre a esquerda, ambos os cotovelos sobre os braços do estofado, cruzando-se as mãos no ar, fechando uma espécie de base onde apoiou o queixo, muito austero, observando-a falar e mexer o cabelo. O copo, deixou sobre uma mesinha.
- Mas não disse que me ama.
- Não preciso dizer, sei bem disto e você também sabe - as mãos firmes faziam o rosto subir e descer quando falava, uma cena um tanto cômica - As palavras por vezes não se fazem necessárias, posto que são apenas consequências.
- Consequências de que?
- Dos fatos.
- E os teus fatos, quais são?
- Estes teus olhos curiosos que você tem aí na cara. Eles são os meus fatos.
 Continuaram a se olhar, ela agora mais satisfeita, com seu belo vestido de renda de tom pastel, uma mulher elegante. Ele a pediu que o tirasse.
- Que você disse?
- O vestido, tire.
 Tirou.
- Venha, aproxime-se - Bateu na perna, agora não estavam mais cruzadas, e sim abertas - Sente-se aqui.
 Ela foi até ele, pegando o copo e arrematando o último gole do uísque. Sentou-se em seu colo. Mexiam um nos cabelos do outro.
- Então, diga que me ama.
 Ele deslizou o dedos pela cintura, olhando fixamente em seus olhos, como se estivesse de fato hipnotizado pela embriaguez que eles particularmente possuíam.
- Não só te amo... como lhe faço ainda hoje um filho, ou não sou mais eu.

A Pulga

A pulga pulou veloz por montinhos de pelos vagarosamente mornos, ainda adormecidos. Fez seus caminhos sucintos, pisando em seu destino inegavelmente previsível de cumprir, no maravilhoso ciclo da biologia, seu dever de mercenária, aos humanos, vilã.
O gato, gordo e preguiçoso, a satisfazer estereótipo de criação humana ou divina, descansava pesado em alguma parte quente daquele ambiente, após o almoço que não lutara para conquistar. Por vezes, abria os olhos lentos de sono, a lamber alguma parte do corpo ou ajeitar-se mais confortavelmente, não se importando com razões ou essências. 
As formigas da cozinha em austeridade incomparável engenhavam uma trilha, inscientes da perfeição que lhes era atribuída, galgando apenas, e apenas almejando um pouco para sua rainha de naturezas irracionais. 
O açúcar era inato, mas se acaso fizesse graça de prosopopeias, seria de incomensurável aprazer que houvessem tão magníficas criaturas deleitando-se em sua monótona condição de ser figurativamente vivo.
Já o homem, ah, o homem... Dono de polegares opositores, vítima dos mais variados amores, pensador de furtivos ardores; o homem, nauseabundo diante de tão patéticos seres, altivo e detentor de sabedorias complexas e paradoxalmente irônicas entre si, permanecia sentado em seu trono de superioridade, arquitetando as mesmas coisas que ninguém ousava interpretar de outra forma que não fosse a própria, do ego. O homem nada sofria se não suas próprias dores; o homem em nada cria se não naquilo que lhe era conveniente crer; o homem abusava e nem mesmo se dava conta de que até o mal que a condição humana causava girava em torno de sua egoísta existência. 
O homem imergia em profundos conflitos existenciais, ouvindo por melífluos os cantos mefistofélicos do ser. 
E ainda assim, todos - os da raça humana, é claro - diziam e faziam repetir: "o homem é consciente, o homem é racional", como se fosse esta a maior gratificação deste belo universo de criações tremendas.
E enquanto isso, há pouca distância (no aspecto físico) daquele ser de obscuras entranhas, continuava a pulga a se alimentar do sangue do animal preguiçoso alimentado pelo homem, O Grande, até que por encargo de seu destino, tão fétido e tão inferior quanto seu próprio ser, simplesmente caiu morta, e morta ali ficou, no pelo morninho do gato, no colo arrogante do homem encerrando assim, o maravilhoso ciclo da biologia irracional.

sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre Felicidade e Poesia


Era apenas uma questão de ser feliz. Observava de minha particularidade, o mundo, e como ele buscava a felicidade. Todo mundo quer ser feliz. “eu não vou sofrer por amor, eu nasci para ser feliz”. Qual o que, a semana seguinte já seria regada a choro de moça virgem trocada por uma loira boa, daquelas que todo homem gosta. Eu pensava comigo, naquela influência mundana, no que me faria feliz. Menino sem jeito viria, em breve, a ser homem sem jeito também. Na falta de jeito, não encontrava nada para me fazer feliz. Ou melhor, encontrava sim; o tal do amor, ele parecia que fazia a gente feliz.
Mas é que às vezes o amor parece tão distante, tão banalizado. Mulher não sabe amar. Homem também não. Talvez eu é que não saiba, mesmo. Mas a questão não é o amor, e sim a felicidade.  Porque por mais que haja amor, pode não haver felicidade, e assim não pode, assim não dá.  Se não há felicidade nesse amor, melhor então que não haja mais amor. A tal da felicidade é o que importa, no fim. Finalmente, encontramos o que realmente importa. Ou talvez não. Pra mim essa felicidade não é bem assim, porque pra mim nunca nada é bem assim.
Isso de normas morais, estruturas psicológicas, nunca entendi. Por que ser feliz? Por que ter dinheiro? Por que viver com uma loira boa daquelas que todo homem gosta? Na verdade, corrijo-me: as morenas é que são boas pra se viver, as loiras são melhores por fora. Para se viver é melhor uma dessas simples, nada de muito sensual e extraordinário, que é pra não chamar muita atenção alheia, só dentro de casa. Por que afinal? Ser feliz é bom, é. Ser feliz não é possível quando se sabe demais, diziam. E não é mesmo, veja bem: a tal da morena, boa pra se viver, ela mesmo, parece bem simples, parece bem boazinha, mas quando se vira as costas, ela também arruma outro por fora.  Quem não sabe, vive bem. Quando se descobre é que a coisa desanda. A ignorância, linda ignorância, ela é que é o segredo da tal felicidade. Tá, tá, vá lá, bela felicidade essa. Mas ser feliz, ser feliz sem poesia: qual é a felicidade de ser feliz sem poesia? E qual é a poesia que é feliz? Onde está a poesia dessa felicidade impulsiva, sem limites? Esse é um oceano onde todo homem, toda loira, toda morena e toda moça virgem mergulham de olhos abertos em busca obstinada pela maldita felicidade. Ora, quem mergulha de olhos abertos no sal desse mar amado que não é de Jorge, morto de poesia, tem logo os olhos feridos, ardem como o cão.
Poesia é melhor que felicidade. Poesia não é feita de felicidade. Poesia, poesia nasce de morte, poesia nasce de falta de entendimento, ou de entendimento demais, poesia. Satisfação poética, talvez se assemelhe a felicidade, aquela sensação de incomparável prazer que se sente ao terminar o último verso, ao deixar um ponto de interrogação ao invés de ponto final, então, é coisa linda de se fazer. Não muito disso é o que se salva quando se tem felicidade. O amor talvez resolva estes problemas, daquilo que o homem enganado chama “falta de inspiração”.
Esse amor, necessidade minha de sofrer para expressar a poesia da alma. Esse amor, necessidade de suprir felicidade, em necessidade de se ter poesia, viver de poesia, viver de nada, viver de abstração, de filosofia vã, de tudo. Viver do vazio de amor, viver do que se faz quando se tem um vazio de amor, viver de ausência, falta da vida propriamente dita, e viver até mesmo da morte de espírito alheia. Vou mesmo é me esquecer da loira, da morena, esquecer de ser homem, esquecer das eventuais falhas, que agora já não mais exercem o papel de evento, mas tornaram-se característica firme e concreta em mim, homem, menino, triste. Triste de amor, triste de ausência, triste de felicidade, triste por qualquer outro motivo, mas triste sempre por poesia, viva ou morta, triste ou não, mas poesia. E poesia feita de falta de felicidade. E que fique bem claro: não me importa a felicidade do mundo, ou o que ele procura. Eu me importo é com poesia, eu busco é poesia. Felicidade é obsoleta.