Olhar a chuva é uma atividade cuja honrosa posição na grande Listagem Universal Das Coisas Aleatórias Que Apenas As Pessoas Plenamente Desocupadas Fazem já pode desbancar até mesmo a tradicional e famigerada contagem de clipes e grampos, não somente por seu fortíssimo embasamento filosófico, mas também é claro, pela possibilidade de observação sobre a quantidade massiva de diferentes formas de lidar com fenômenos pluviais que os seres humanos, em sua superioridade racional, desenvolveram ao longo de milênios de evolução na natureza: correr, cobrir-se com jaquetas ou bolsas, esconder-se em abrigos improvisados de forma amontoada, ou até mesmo o grandioso guarda-chuva - item motivador de grande orgulho entre os utensílios criados pelas mãos providas de polegares opositores -, enfim; o homem é o primeiro animal a armar um verdadeiro circo de horrores para se proteger da substância de alta periculosidade que compõe aproximadamente setenta por cento de... Seu próprio corpo (um fenômeno verdadeiramente impressionante).
Contudo, se algo pode ser mais prazeroso do que simplesmente observar da janela do quarto quentinho a chuva e suas consequências sobre a frágil e insegura visão humana de mundo, é muito provável que esta coisa seja justamente estar lá fora na chuva, enquanto a magia acontece e as pessoas desesperadas passam, esforçando-se ao máximo por se esconder dela. E com toda a certeza, dirigindo a você olhares de forte reprovação, num misto de perplexidade e pena. Na verdade, você provavelmente receberá os mais pesados julgamentos nessa situação. Provavelmente, sua sanidade mental receberá os mais pesados julgamentos. E sua maturidade, também. E sua aparente (in)capacidade de lidar com o Terrível Mundo Dos Adultos, então...
Bem, em outras palavras, ficará bastante claro a todos os presentes, neste caso, que você faz parte da grande parcela de seres inconsequentes e perigosíssimos que representam um péssimo exemplo para a criançada, por não temer infinitamente a principal substância presente no corpo humano. No entanto, se ainda assim, tendo a consciência plena das consequências de ser um inconsequente, seu nobre coraçãozinho vagabundo não puder conter uma alegria jovial ao imaginar-se banhando nas gotinhas daquela garoa sarcástica das tardes de junho, em praça pública, anunciando sua própria desgraça diante da seriedade dos seres sociais à sua volta, permanece o convite. Aproveitar um bom banho de chuva pode ser muito mais interessante do que simplesmente fingir que ela não existe, por mais incrível que isso possa parecer.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Um singelo convite para tomar chuva
terça-feira, 2 de junho de 2015
Fotofobia II
A luz branca
De um sol envelhecido
Esfaqueia a janela
Invade
Atravessa
A penumbra da sala de estar
A meia luz
De uma vela inteira
Queima a distância
Aquece
Abraça
Os corpos do quarto menor
Dá pra ver que lá fora
A luz seca do dia
Na umidade dessa rua
Tão fria,
Tão crua,
Vem tão cheia de mora.
domingo, 3 de maio de 2015
Não podemos ter gente preta por aqui
Passeando pelos corredores de um shopping na avenida paulista, me deparei com uma daquelas cenas cotidianas bem comuns: o segurança, um homem negro, fardado e com o rádio em punho, encaminhava, como um pastor, um grupo de três moleques da mesma cor, não mais que treze anos cada, para a saída. Por motivos de segurança, pensei. Provavelmente já haviam dado problema antes. Segurança. Aquela mesma segurança nacional, motivação ideológica da nossa revolução de sessenta e quatro.
Passei reto, mas refleti sobre aquilo. Aquele homem negro não fazia mais que seu trabalho (como todo bom trabalhador negro), que era garantir a nossa integridade, o nosso conforto. Nós temos de nos sentir confortáveis para continuar movendo a economia. E é muito nítido que aqueles três pequenos monstrinhos de um metro e meio representavam, para a nossa integridade, uma ameaça terrível. Pelo simples fato de existirem. Pelo simples fato de não serem, como o segurança, funcionários.
Não podemos ter gente preta desuniformizada por aqui. São normas de segurança, e é simplesmente inadmissível. Eles já podem passear livremente pelos corredores durante seus horários de almoço, pra que precisam ocupar nosso espaço também em seus domingos? Pra que suas crianças também viriam até aqui? Isso é muito revoltante. Permitimos já, demais, deixando que utilizem o local externo ás cozinhas da praça de alimentação, sob título de passatempo até que tenham de voltar ao trabalho. Trabalho negro. Trabalha, negro!
(Relato fantasioso sobre uma situação real.)
domingo, 12 de abril de 2015
Juramento
Ao medo dos homens e suas escolhas
À brisa macia que agrada a face
À luz do dia e ao verde das folhas
Ao próprio amor e a todo o enlace
Ao sempre que nunca se alcança
Ao todo da vida e ao seu nenhum
À idade corrida que aos ossos avança
Aos irmãos de Jesus e filhos de Ogum
Ao concreto e às coisas criadas
Às cadeias morais dessa guerra
À realidade abstrata das indomadas
Às marcas da pele na luta pela terra
A tudo isso,
A nada disso,
Dedicada uma vida toda.
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Autorretrato
A minha alma tem lacunas
Como a lei que nos governa
Por ela ando sobre as dunas
Entro e saio das cavernas
Minha alma é bicho solto!
Não se prende a amor de vida
Pode estar por um dia envolto;
No seguinte já é ser de partida
A infeliz chora, e mata, e morre
Ou canta, ou anima o mundo errante
No fim há só o tempo que escorre
Pelas mãos desse pobre ser infante
O astronauta
Quando criança,
queria ser astronauta
um dia, cresceu
e tornou-se o melhor
de todos os que o mundo podia ter
só era uma pena
não poder perceber isso
por estar ocupado demais
lavando o chão dos banheiros
de um shopping center.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Pela janela do ônibus
Na rua daquela igreja
há uma kombi incinerada
representando a decomposição
de tudo aquilo que (não) vive
nas ruas duras dessa cidade
Mais adiante, na mesma calçada
ciscando, condicionado
um grupo de ex-galos-de-rinha
só espera, da vida e do mundo
encontrar milho entre as folhas secas.