terça-feira, 2 de junho de 2015

Fotofobia II

A luz branca
De um sol envelhecido
Esfaqueia a janela
  Invade
  Atravessa
A penumbra da sala de estar

A meia luz
De uma vela inteira
Queima a distância
  Aquece
  Abraça
Os corpos do quarto menor

Dá pra ver que lá fora
A luz seca do dia
Na umidade dessa rua
  Tão fria,
  Tão crua,
Vem tão cheia de mora.

domingo, 3 de maio de 2015

Não podemos ter gente preta por aqui

Passeando pelos corredores de um shopping na avenida paulista, me deparei com uma daquelas cenas cotidianas bem comuns: o segurança, um homem negro, fardado e com o rádio em punho, encaminhava, como um pastor, um grupo de três moleques da mesma cor, não mais que treze anos cada, para a saída. Por motivos de segurança, pensei. Provavelmente já haviam dado problema antes. Segurança. Aquela mesma segurança nacional, motivação ideológica da nossa revolução de sessenta e quatro.
Passei reto, mas refleti sobre aquilo. Aquele homem negro não fazia mais que seu trabalho (como todo bom trabalhador negro), que era garantir a nossa integridade, o nosso conforto. Nós temos de nos sentir confortáveis para continuar movendo a economia. E é muito nítido que aqueles três pequenos monstrinhos de um metro e meio representavam, para a nossa integridade, uma ameaça terrível. Pelo simples fato de existirem. Pelo simples fato de não serem, como o segurança, funcionários.
Não podemos ter gente preta desuniformizada por aqui. São normas de segurança, e é simplesmente inadmissível. Eles já podem passear livremente pelos corredores durante seus horários de almoço, pra que precisam ocupar nosso espaço também em seus domingos? Pra que suas crianças também viriam até aqui? Isso é muito revoltante. Permitimos já, demais, deixando que utilizem o local externo ás cozinhas da praça de alimentação, sob título de passatempo até que tenham de voltar ao trabalho. Trabalho negro. Trabalha, negro!

(Relato fantasioso sobre uma situação real.)

domingo, 12 de abril de 2015

Juramento

Ao medo dos homens e suas escolhas
À brisa macia que agrada a face
À luz do dia e ao verde das folhas
Ao próprio amor e a todo o enlace

Ao sempre que nunca se alcança
Ao todo da vida e ao seu nenhum
À idade corrida que aos ossos avança
Aos irmãos de Jesus e filhos de Ogum

Ao concreto e às coisas criadas
Às cadeias morais dessa guerra
À realidade abstrata das indomadas
Às marcas da pele na luta pela terra

A tudo isso,
A nada disso,
Dedicada uma vida toda.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Autorretrato

A minha alma tem lacunas
Como a lei que nos governa
Por ela ando sobre as dunas
Entro e saio das cavernas

Minha alma é bicho solto!
Não se prende a amor de vida
Pode estar por um dia envolto;
No seguinte já é ser de partida

A infeliz chora, e mata, e morre
Ou canta, ou anima o mundo errante
No fim há só o tempo que escorre
Pelas mãos desse pobre ser infante

O astronauta

Quando criança,
queria ser astronauta
um dia, cresceu
e tornou-se o melhor
de todos os que o mundo podia ter
só era uma pena
não poder perceber isso
por estar ocupado demais
lavando o chão dos banheiros
de um shopping center.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pela janela do ônibus

Na rua daquela igreja
há uma kombi incinerada
representando a decomposição
de tudo aquilo que (não) vive
nas ruas duras dessa cidade

Mais adiante, na mesma calçada
ciscando, condicionado
um grupo de ex-galos-de-rinha
só espera, da vida e do mundo
encontrar milho entre as folhas secas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Mortes horríveis

Morro todo dia um pouco
De ódio, amor
Ou de saudades
Eu morro como morre quem é louco

Morro às vezes pela manhã
Ou mais a noite
Também sem regra
Eu morro à embriaguez da vida sã

Morro quando desce a tardinha
E caminha, sem ardor
O ser dessas amenidades
Opondo-se à guerra, a paz desalinha

Morro sem pressa ou sem coragem
Morro de culpa ou por açoite
E como todo a quem se alegra
Eu morro da febre que me causa tua friagem