terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O dom e a eterna sacanagem divina

Aparentemente, este planeta super cafona e decaidinho que chamamos de lar está dividido em três grupos de pessoas, respectivamente apresentados em ordem crescente da quantidade de membros: o das pessoas com bom senso, o das que são frouxas e não opinaram e por último, o maior grupo: o das pessoas que acreditam em dons.
Diz-se do dom, no dicionário de língua portuguesa cujo nome não vem ao caso: "SM. 1 dádiva, presente. 2. Qualidade inata [...] 4. Poder. [PL.: dons]". Basicamente, portanto, a maior parte da população mundial acredita que Van Gogh teria, em algum dado momento de sua triste vida, recebido um presente que o tornou um carinha talentoso o bastante para criar belas pinturas, por exemplo.
Não que haja efetivamente um problema em acreditar nisso; é até uma crença bastante plausível, sob a nossa condição mortal, afinal, para deixar de ser plausível, as crenças devem teoricamente levar seu crente a ceifar o direito essencial à vida de outrem, mas provavelmente passa a ser um pouco constrangedor quando seus tios e/ou avós começam a acreditar que por ter andado ou balbuciado algumas palavras antes do tempo, você seja com certeza um ser agraciado com algum tipo de genialidade bizarra como as daqueles caras que comandam empresas de software bilionárias.
Pois é, a parcela da população crente em dons celestiais comete algumas gafes. Talvez você tenha se frustrado um pouquinho ao descobrir que pós-doutorado em física quântica das ciências iônicas da galáxia paradoxal não combinaria com quem você queria ser, justamente por causa da crença; às vezes, ela pressiona um pouco a gente. Mas não se sinta mal por isso, de forma alguma. Ser corretor de imóveis também é OK, e talvez você nem fosse feliz estando em outra situação, não é mesmo?
No entanto, em meio a tantas peculiaridades existentes na crença de dons, mais do que na da meritocracia e menos do que na da cura gay, há um certo efeito negativo, e ele se dá quando o indivíduo crente retira de seu vocabulário a prática e a experiência, para reduzir (ou aumentar?) tudo à decorrência de dom.
Vejamos, tudo bem acreditar que uma entidade superior tenha conferido a cada pequeno ser alguma habilidade específica. Todavia, será praticamente impossível não sentir ao menos uma pontinha de curiosidade a respeito de como e por que diabos esse camarada superior teria presenteado algumas pessoas com dons um tanto... Exóticos (a exemplo daquela sua amiga que decorava placas de carros de todos os professores do ensino fundamental, do seu colega que toca a língua no nariz ou até mesmo da sua prima que consegue fazer bolas de chiclete maiores que o próprio rosto).
Torna-se, por fim, uma paranóia agonizante, imaginar que o ser superior que te fez uma grande decoradora de placas de carros, um cara que toca o nariz com a língua, ou uma fazedora de bolas de chiclete, estava na verdade meio entediado e resolveu fazer umas sacanagens com seus seres inferiores.
De qualquer forma, o importante mesmo é não ceifar o direito essencial à vida de ninguém. Não tanto por grandes motivos, mas mais por ser plausível em suas crenças, numa boa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Coisas que a chuva não impede

Cansada de ouvir tantas reclamações
Sobre aquilo que a chuva
Poderia impedir
fluência normal do tráfego
Aulas ou reuniões
Fez uma lista de outras coisas tão legais
Que jamais
A chuva há de proibir

A chuva não impede
As pessoas de jogar
Sejam cartas de baralho
ou sinuca, no bar

Ou que estando proibidas
de brincar no quintal
as crianças construam cabanas
com alguns itens de enxoval

A chuva não impede
Que se faça amor sem compromisso
No aconchego do apartamento
de uma das partes envolvidas nisso

E a chuva não impede
Que você seja feliz
Fazendo caretas quando cai
uma gota de chuva no nariz

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A perda da graça

Ao que tudo indica, durante muitos séculos de pesquisa sobre o comportamento da espécie humana, concretizou-se a ideia de que nossa sina biológica, que os mais ousados chamariam ciclo de vida, resumiria-se apenas a quatro eventos citados e difundidos em escolas, igrejas e na interminável fila do açougue da vila: a gente nasce, cresce, reproduz-se e morre, deixando os filhos feitos na terceira fase  ( se bem que muitas vezes a segunda e a terceira fase possam vir a inverter-se, mas não vem ao caso) ao deus dará.
No entanto, teorias um tanto mais sofisticadas, por assim dizer, foram muito além para nos mostrar que estivemos perdidamente enganados acerca desta infame listinha de verbos inerentes ao ser humano; de certa forma, provou-se por a + b, como 2 e 2 são 4, que na verdade nosso ciclo de vida, como dizem os caras de pau, teria um outro ato a mais, nas imediações da segunda fase oficial - o crescer -, apesar de o tempo não ser certeza, ao qual chamamos carinhosamente "perder a graça".
Não se descobriu a princípio com muita exatidão, sob qual circunstância perdemos a graça; muitos diriam se tratar do aniversário que não tem mais importância, outros alegariam que para si, perderam a graça quando deixaram de sair de casa sem guarda-chuva, ou até mesmo houve quem dissesse que nada era mais sinônimo de perder a graça do que o matrimônio da legislação monogâmica, mas o certo é que esta aparentemente simples descoberta causou nos cientistas um grande reboliço, e inclusive, um leque de outros teoremas foi aberto com esta possibilidade, uma vez que a partir deste novo conhecimento, desta verdadeira inovação científica, como já é de se esperar sempre, após qualquer evento terreno, os cientistas e pesquisadores ganharam cada vez mais empregos, enquanto os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas os perderam à mesma proporção, porque estas são as regras do jogo.
Surgiram enfim, como pipocas estourando na panela, as milhares de vertentes do estudo sobre o quinto possível elemento no comportamento biológico do ser humano. Alguns destes, como por exemplo o estudo acerca do momento da vida em que perdemos a graça, questionavam, como não deve ser difícil deduzir, a data em que esta fatalidade nos acontece.
Foi quando os cientistas dividiram-se entre os que acreditavam tratar-se de um evento localizado entre o nascer e as primeiras palavras, estando portanto antes do crescer na sina da vida, e outros, que juravam de pés juntos que a perda da graça começaria a apresentar seus sinais visíveis após o sexto copo consecutivo de cerveja, podendo-se localizar tanto antes, quanto depois do crescer - ou do reproduzir, já que os descendentes puxam muito da graça humana.
Os votos também variavam entre os que relativizaram tanto a coisa ao ponto de acharem que a perda estaria após a morte. A justificativa dada a esta possibilidade foi a de que "memórias póstumas de Brás Cubas" seria uma obra muito entediante, porém esta teoria foi logo quebrada com o argumento sobre a especulação do estereótipo do cientista que odeia literatura.
De qualquer forma, o mais impressionante em toda essa história incrível continua sendo, sem dúvidas, o fato de que, em absoluto, todos os cientistas empenhados em descobrir mais sobre como, quando, onde e por que o ser humano perde a graça, já haviam perdido as suas graças de forma integral havia muito tempo, e seria de fato dificílimo fazer qualquer piada que fosse, sobre, para ou com eles. Daí então, mais uma vez os poetas, roteiristas de esquetes, comediantes e humoristas, como já é parte do ciclo de vida dessas subespécies quase-humanas, perderam seus poucos empregos (que pode ser o quarto ou terceiro ato na listinha infame de verbos inerentes a estes seres, mas não deixa de se fazer presente).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Versinhos da inadimplência

Os poetas nunca oferecem
Presentes comerciais
Primeiro porque não tem dinheiro
E segundo porque a poesia
Oferece muito mais. 

Dizendo assim até parece
Que vive-se apenas de verso
A bem da verdade é quase isso
Exceto umas cervejas baratas,
Um cafuné e um olhar disperso.

Pena é pesar mais que o verso
Esse 'quase' que atormenta
Deixa a gente inadimplente
Vendendo a alma pela carne
Só pra ter o que alimenta.

domingo, 12 de outubro de 2014

Guia da auto-ajuda reversa

Nunca fui (nem tampouco desejo ser) boa conselheira, independentemente do âmbito do conselho: minhas sugestões sentimentais são ruins, as financeiras, péssimas e nem adianta criar expectativas para as estéticas; são piores ainda.  Eis que veio a mim, num dia desses, um amigo meio desanimado devido a falta de grana que tem enfrentado desde que saiu de casa. Recebeu uma proposta de emprego bem melhor, num lugar horrível e fora de mão, cujos horários provavelmente atrapalhariam seus estudos. Respirei fundo.
‘Olha, não fique assim, ainda tem alguns concursos, você pode tentar outras coisas, sempre tem uma oportunidadezinha aqui e outra ali, vai dar tudo certo, no final sempre dá certo... Até porque, no final, você vai morrer, mesmo.’  Parei por um segundo e pensei no que tinha acabado de dizer. Aparentemente, não é vista com bons olhos a mensagem otimista que fala sobre morte, mas ainda estou tentando entender o motivo disso. Afinal, não vamos morrer mesmo? Até o presente momento, não vejo outra alternativa.
Em outras manifestações desse meu pensamento torto, houveram protestos: “mas se a gente vai morrer mesmo, por que não cavar um buraco no chão e enfiar a cabeça dentro?” Ora, mas é justamente por saber que a gente vai morrer é que se matar se torna a coisa mais desnecessária. Pode-se muito bem poupar o esforço e o tempo que se empreenderia em tentativas de suicídio para usá-los em coisas bem mais divertidas, como por exemplo brincar com um gato, ler um livro ou comer pudim. “Há muito mais pudim entre o céu e a Terra, do que podemos pensar em comer”, já disse um sábio. Portanto, primeiro passo: esqueça o suicídio, ele é desnecessário e se você falhar, pode acabar se machucando feio, o que só causaria mais problemas.
Continuei a conversa com a estimulante frase: A vida não passa de uma grande fila de espera para o eterno consultório dentista que é a morte. Fui novamente contestada, onde é que já se viu, se animar uma pessoa citando mortes e dentistas. Mas não há nada que se possa ser feito: você sabe apenas que uma hora vai entrar naquela sala lazarenta, pode ser que doa e meio que não tem como ser a melhor coisa do mundo. Portanto, o que resta além de uns passatempos maneiros enquanto você ouve o barulhinho horripilante das máquinas e finge que não sabe do que se trata? Tudo depende da forma como você conduz sua fila de espera: tem gente que fica os quarenta minutos lendo a revista Caras de 2007, e tem gente que tem ideias, começa ou termina projetos. Você pode até conhecer um grande amor na fila de espera, e pessoalmente, conheço casos que comprovam essa hipótese.
O segundo passo é não se prender demais aos grandes impasses e relaxar: uma hora, você morre. Enquanto ela não chega pra você, continue numa boa.  No final das contas, as pessoas ao redor estão no mesmo barco que você. A última objeção foi sobre a demora, mas isso, creio que tenha sido bastante esclarecido: o dentista está ocupado, outras pessoas estão na sua frente, sabe. Dê o tempo, não banque o impaciente. A pressa é, além de inimiga da perfeição, um  grande mal presságio: quem tem pressa, quer morrer logo.  

Por fim, não seja mal educado com as pessoas a sua frente: elas podem cuspir propositalmente em algum material que o dentista vá usar em você, sem que ele veja. OK, este foi realmente um conselho estranho. Mas serve pra ilustrar o que a revista Caras de 2007 pode fazer com você.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O garoto do pão de queijo

Voltando para casa, tomei um ônibus no Ipiranga. Viajava em pé, pois não haviam mais lugares, e ao meu lado, sentada estava uma mulher muito magra, de aspecto quase doentio e expressão já muito sofrida, apesar de não demonstrar mais de vinte e cinco anos. No seu colo havia um molequinho pequeno de uns três ou quatro, comendo um pão de queijo e observando a rua pela janela. De repente, sentiu saudades do pai.
 - Ele tá na casa dele, fio.  – Causou algum desconforto essa notícia na criança, começou a se movimentar e chamar pelo pai mais vezes, e a mulher sempre dizia o mesmo. A vida que levavam, em toda a simplicidade, parecia complicada. Era interessante a forma como ele olhava para tudo, curioso, e ela, assustada, como quem não vive contando com muitos direitos, com muitas oportunidades. Quem vive rápido, com medo e com pressa, pra não perder o das crianças. Seu olhar cruzou ainda com o meu e fez um gesto de cumplicidade, um risinho curto e meio sem motivo que queria abrir ao mundo que nunca lhe abria nada. Foi nesse momento que pude sentir cada músculo do corpo virar pó diante da ingratidão cotidiana que carregamos pela vida, um pesado fardo que espero, ainda que numa esperança meio moída, o menino não carregue.

Ele por sinal, distraído e cheio de força, carregava já outro fardo, aquele que surge proporcionalmente com as medidas do corpo infantil deixando o primeiro estágio da vida. Mais tarde, será obrigado a pensar em algo que o faça feliz, porque a felicidade adulta não é natural como a infantil, mas vem com o tempo. E o tempo não tem relação amistosa com a felicidade. Um dia, aquele garoto tomará conhecimento dos mecanismos da vida, e tudo o que desejará é não ter conhecido o tempo. Um dia, terá necessidades não supridas e perceberá o quão cruel é a máquina social com seu óleo humano. Nesse dia, todas as suas esperanças serão destituídas, todas as suas forças serão testadas ao seu limite, e talvez o ultrapassem de tal forma que ele já não possa mais suportar a situação do amadurecimento. Terá crescido quando este dia chegar, e quando o mesmo for embora, terá se tornado um homem, marcado e cheio de preocupações. Durante todo o processo, sofrerá e se angustiará, em toda a sua vitalidade, com o medo da falta, com a subordinação injusta e obrigatória e com a fé na sobrevivência por um fio, para que quando todos os longos dias tornarem-se curtos e  acabarem-se, tenha por fim tudo de sobra, mas nenhuma força para poder vivenciar algo. Mas é de extrema importância que não pense nisso agora, pois pensar só lhe fará fazer menos, e ganhar nada. Um dia ele pensará e chegará à conclusão de que não foi feito para viver, mas sim para resistir. Resistir moral, religiosa e legalmente. Resistir enquanto puder, e diante de boa resistência, não será mais que um a mais. Faz parte de um jogo, onde começa tudo exatamente como ele começou, sem nada, para assim passar a vida toda, em todos os momentos de necessidade, e ao fim, quando a memória falhar e nem de suas necessidades possa mais se lembrar, tenha o bastante em suprimento para qualquer uma delas.

Desabafo

Todas as pessoas que eu conheço
Querem que eu arrume um emprego
Querem que eu penteie meu cabelo
Querem que eu comece do começo

Todas as pessoas ao redor
Querem que eu alcance o sucesso
Querem que eu conquiste o acesso
E tudo o mais que eu já sei de cor

Mas eu não quero em vão
Ter dez barões ao mês
O que eu quero mesmo é vagabundear

Eu não sirvo, não
Almofadinha, rico, nobre ou burguês
Se for assim, prefiro mesmo é "fracassar".